A União Europeia é frequentemente descrita como um actor global de paz e segurança, fundado na promoção de normas, na diplomacia multilateral e na superação de conflitos através da integração política e económica. Esta narrativa, dominante tanto no discurso institucional europeu como em grande parte da literatura académica, apresenta a UE como uma entidade distinta das potências tradicionais, capaz de projectar estabilidade sem recorrer centralmente ao poder militar.
Contudo, a realidade parece mostrar que os europeus subestimaram uma dimensão fundamental: a UE não opera num vácuo normativo, mas num sistema internacional estruturado pela distribuição de poder, pela rivalidade entre grandes potências e por dinâmicas geopolíticas que condicionam profundamente as suas margens de acção. Mais do que perguntar se a UE é ou não um actor de paz e/ou de segurança, importa compreender em que condições sistémicas a UE consegue agir como actor de segurança e através de que mediações políticas internas essa ação se torna possível.
A literatura organiza-se, de forma geral, em torno de três grandes interpretações. A primeira concebe a UE como normative power, sublinhando a sua capacidade de difundir normas, valores e modelos institucionais através de instrumentos não coercivos. Nesta perspetiva, enraizada no contexto do pós II Guerra Mundial, a UE contribui para a paz sobretudo pela transformação estrutural dos contextos políticos externos, mais do que pela gestão direta da força.
A segunda leitura centra-se na dimensão institucional, particularmente na Política Comum de Segurança e Defesa. Aqui, a UE é entendida como um actor de segurança em construção, dotado de mecanismos próprios de gestão de crises, cooperação militar e planeamento estratégico. A UE surge como um actor “híbrido”, que combina instrumentos civis e militares, ainda que com capacidades e objectivos limitados.
A terceira abordagem, de inspiração realista, é mais cética. Argumenta que a UE carece dos atributos fundamentais de uma potência estratégica: soberania, comando militar unificado, cultura estratégica comum e capacidade de decisão rápida. A segurança europeia continua a depender estruturalmente da NATO e dos Estados Unidos, relegando a UE para um papel secundário em termos geopolíticos e nas discussões entre grandes potências.
Estas leituras, embora distintas, partilham um pressuposto implícito: analisam a UE sobretudo a partir das suas características internas. O problema é que a relevância estratégica da UE depende não só da sua identidade e capacidade institucionais, mas também do contexto sistémico em que está inserida.
De um ponto de vista geopolítico, a UE não é uma potência clássica, mas também não é um mero actor civil. Trata-se antes de uma unidade política estruturalmente incompleta, pois possui território estratégico, massa económica, uma base industrial limitada face às necessidades e capacidade regulatória, mas carece de soberania política e militar plenamente integrada. Isto coloca a UE numa posição singular no sistema internacional. Não é um Estado, mas também não é uma organização internacional convencional. A sua capacidade de agir como actor de segurança não decorre de um centro soberano de decisão, mas da articulação contingente de interesses nacionais, instituições comuns e percepções partilhadas de ameaça.
Em termos analíticos, a UE funciona como um actor geopolítico distinto. A sua capacidade de projeção externa depende da forma como as pressões sistémicas são filtradas pelas suas estruturas internas. Quando existe convergência entre ameaça externa e quando está em sintonia com o consenso político interno, a UE consegue, até certo ponto, mobilizar recursos estratégicos significativos. Quando essa convergência falha, a sua acção fragmenta-se e perde coerência. A guerra na Ucrânia representa um choque exógeno que reconfigura radicalmente o ambiente estratégico europeu. O regresso da guerra convencional ao espaço europeu, protagonizada por uma grande potência revisionista, reintroduz uma lógica clássica de equilíbrio de poder que contrasta com o quadro pós-Guerra Fria em que a UE se consolidou.
Este choque não parece transformar ontologicamente a UE, mas altera profundamente as condições da sua acção. A pressão sistémica obriga as elites europeias a reinterpretar ameaças, a aceitar custos de oportunidade anteriormente inconcebíveis e a flexibilizar tabus históricos, sobretudo no domínio da defesa. O reforço dos investimentos militares, a criação de instrumentos de financiamento para apoio militar externo e a centralidade adquirida pelo discurso da autonomia estratégica refletem esta mudança. Contudo, esta adaptação permanece estruturalmente condicionada. A capacidade da UE para atuar como actor de segurança relevante continua dependente da NATO e, em última instância, da dissuasão americana. A UE não se autonomizou do sistema transatlântico; inseriu-se nele de forma mais ativa. A guerra da Ucrânia revela que UE age estrategicamente não por vocação, mas por necessidade.
É neste cenário que o conceito de autonomia estratégica ganha centralidade, mas deve ser interpretado com cautela. Mais do que um projeto de emancipação plena, a autonomia estratégica europeia parece apontar para uma forma de dependência gerida: a tentativa de reduzir vulnerabilidades sistémicas específicas sem romper com a arquitetura de segurança liderada pelos Estados Unidos e com a dinâmica interna de relações nacionais. A UE procura aumentar a sua resiliência industrial, tecnológica e energética, mas fá-lo dentro de uma estrutura sistémica que continua a ser hierárquica. Não emerge como um polo autónomo de poder, mas como um multiplicador condicionado do poder atlântico.
Deste ponto de vista, a UE não parece caminhar para se tornar uma grande potência no sentido clássico. Caminha antes para consolidar uma posição intermédia: suficientemente forte para influenciar a ordem regional europeia, mas estruturalmente incapaz de garantir a sua própria segurança de forma independente.
A União Europeia é um actor de paz e segurança, mas não apenas no sentido normativo ou institucional em que é frequentemente descrita. A sua relevância estratégica não resulta de soberania, nem de identidade pós-moderna, mas da sua posição estrutural num sistema internacional marcado pela rivalidade entre grandes potências.
A UE não é um actor geopolítico por design, mas por contingência. Torna-se relevante quando a pressão sistémica força a convergência política interna; torna-se irrelevante quando essa convergência se dissolve. A guerra da Ucrânia não cria uma “nova UE”, mas expõe com clareza a sua função no sistema: uma potência geopolítica, cuja capacidade de agir depende não só daquilo que é, mas daquilo que o sistema a obriga a ser.
Isto coloca a UE num lugar específico na ordem internacional contemporânea: não como alternativa às grandes potências, mas como actor estruturalmente condicionado, situado entre ambição estratégica e dependência sistémica. É nessa tensão, e não na retórica normativa, que reside a chave para compreender o seu verdadeiro papel global.
Lisboa, 3 de fevereiro de 2026
Pedro Miguel Almeida
EuroDefense-Jovem Portugal
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