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A “rede” que liga os demais intervenientes na indústria de desenvolvimento de tecnologia militar europeia, encontra-se inserida dentro de uma estrutura mais vasta, cuja fronteiras são cada vez mais dinâmicas e permeáveis.

Os Estados-Membros da UE são atualmente forçados a precaver e antecipar desafios com efeitos sistémicos inesperados quando planeiam as suas estratégias de inovação e desenvolvimento de tecnologia de defesa, refletindo a importância de analisar “a rede da rede” (estrutura), na qual “esta rede” mais específica, está inserida.

 Num contexto global atualmente marcado pelo aumento de conflitos armados internacionais, inovação tecnológica a um ritmo mais acelerado no setor privado que público, um emaranhamento de cadeias de abastecimento e choques de interesses entre atores estaduais e não-estaduais, as relações de interdependência que ligam estes elementos e fatores de decisão resultam em dinâmicas assimétricas, cada vez mais complexas (conforme cunhado em 1977 por Joseph Nye e Robert Keohane, com o termo ‘interdependência complexa’).

Quanto maior a complexidade, maior a dificuldade de prever e responder coletivamente a choques no curto prazo, uma vez que esta capacidade de resposta envolve a coordenação alargada de vários atores cada um com os seus interesses.

“A rede da rede” é complexa, mas não tem de ser necessariamente instável (no sentido de não ser confiável). Quando estabelecida com base em ordem e regras respeitadas por todos os atores, pode ser relativamente flexível, e como tal resistente, a choques vindos do exterior mesmo sendo estes difíceis de antecipar. No entanto quando os choques vêm de dentro da “rede da rede”, acaba por se verificar uma falta de confiança no traçar de estratégias, especialmente as que envolvem o tema de segurança nacional (que são da competência soberana dos estados).

Podemos, e se calhar devemos, considerar a “rede da rede” conforme se encontra atualmente como bastante instável, visto que um dos “nós” mais pesados, que anteriormente era visto como pilar de estabilidade e segurança tem-se vindo a mostrar, através das intervenções da sua atual Administração, como um dos elementos mais voláteis e disruptivos da rede.

A incerteza e hesitação aumentam quando ponderamos que certos efeitos (resultantes das ações deste ator) não são óbvios, nem sentidos no imediato. É então necessário pensar em todos os possíveis impactos e cenários nos extremos da “rede da rede” que possam advir de um evento “numa das redes”. Os impactos que o ataque dos EUA e Israel ao Irão terá na capacidade de desenvolvimento tecnológico militar europeu é o exemplo que será abordado ao longo desta reflexão.

Embora à primeira vista a robótica possa parecer distante do barril de petróleo, a relação torna-se evidente ao se considerar a logística subjacente à globalização e a origem de derivados petroquímicos, que são essenciais para a produção de isolantes e plásticos de alta performance utilizados em hardware militar, utilizado em armamento dos Estados-Membros europeus.

Apesar de não haver ordem ou declaração oficial do Irão para o encerramento do estreito de Ormuz, na prática o fluxo marítimo através do mesmo está parado. Espera-se que 20% a 25% do petróleo mundial ficará retido, evento que terá efeitos nocivos em diversas indústrias nacionais e internacionais. Já na década de 70, com a Guerra de Yom Kippur e o embargo da OPEP se fizeram sentir estes efeitos, que serão agora exacerbados pela interdependência cada vez mais complexa (Nye e Keohane, 1977) da “rede da rede”.

A paragem da movimentação marítima no estreito impede a exportação via mar de petróleo iraniano, simultaneamente “asfixiando” as exportações marítimas de países como Arábia Saudita, Iraque e Emirados Árabes Unidos (exportadores de petróleo) e o Catar (exportador de gás natural liquefeito), que não têm alternativas viáveis para escoamento, a curto prazo.

Este condicionar de fluxos de abastecimento será sentido transversalmente e os olhos do mundo estão postos tanto no Golfo como atentos à reação e postura dos “grandes nós da rede”.

Os EUA tomam atualmente proveito da estratégia de “reshoring” do mandato Biden, que foi crucial na diversificação do risco das cadeias de abastecimento internacionais, e redução de dependências, especialmente da Ásia. Retornam, com a Administração Trump 2.0, a apostar fortemente em indústrias de combustão e num forte desenvolvimento de arsenal militar, atualmente a ser posto em uso. A posteriori, podemos concluir que asseguraram acesso a fontes alternativas de petróleo pré-bombardeamento no Irão, através de protocolos de exploração americanos de petróleo venezuelano (implementados após a captura do Presidente Nicolas Maduro).

A China, que era um dos importadores de petróleo venezuelano, teve grande parte das importações de petróleo no ano passado vindas do Irão, da Arábia do Sul, de Omã, do Kuwait e do Iraque. É um dos principais atores a sentir os efeitos de “asfixia” no imediato. É também detentora de um quase-monopólio sobre a cadeia de valor das matérias-primas críticas, cruciais na produção da mais recente robótica e IA militar. Controla não só a extração global de elementos críticos (terras raras e magnésio), mas também cerca de 90% da capacidade de refinação e processamento destes materiais.

Pequim, irá certamente utilizar a posse destes ativos como alavanca de poder geopolítico e através da tensão no Golfo, para justificar a intensificação da sua estratégia de coerção económica com exportações a preços mais altos, que terão também por si repercussões noutras áreas para além da defesa.

A União Europeia (UE) face ao contexto volátil que se tem vindo a intensificar desde a invasão russa na Ucrânia em 2022 e consciente da sua histórica fragmentação nas capacidades de defesa, decidiu abordar as suas lacunas com diversas iniciativas abrangentes. Estas visam fomentar a procura agregada, investimento em desenvolvimento, inovação e produção de material militar em solo europeu, investimento nas condições para militares, reforços de infraestruturas, entre outros.

Face à mais recente tensão, é de realçar o Critical Raw Materials Act, que visa garantir o acesso seguro, resiliente e sustentável da UE às matérias-primas indispensáveis para as tecnologias verdes, digitais, espaciais e de defesa. O regulamento estabelece metas claras para aumentar a capacidade interna de extração, processamento e reciclagem na Europa até 2030.

Na vertente financeira, o SAFE (Security Action for Europe), em 2026 já libertou cerca de €74 mil milhões para os primeiros 8 Estados-membros (do qual Portugal faz parte), um reforço crucial para o desenvolvimento de capacidades de defesa europeia, sendo o desenvolvimento de tecnologia um dos pilares prioritários nos planos atuais dos 3 ramos das nossas Forças Armadas (Força Terreste 2045, Plano Estratégico da Marinha 2040 e o Plano de Voo 5.3).

As iniciativas de investimento e desenvolvimento de capacidades de defesa europeia estão em andamento e direcionam-se no sentido certo. No entanto, a atual tensão no Golfo virá trazer desafios sistémicos acrescidos, que irá testar a robustez da estratégia europeia em diversas frentes.

Primeiramente, a produção europeia de armamento tecnológico (drones, sistemas de vigilância com IA) de momento depende de uma cadeia onde a UE ainda só assegura perto de 30% do valor acrescentado. Perante um cenário de inflação e possíveis cortes de fornecimento, uma estratégia de diversificação de cadeias para outras fontes que partilhem dos mesmos valores políticos será necessária, mas difícil de assegurar num curto espaço de tempo.

Em segundo lugar, os choques nos preços da energia poderão forçar Estados-Membros a desviar orçamentos da “robótica futurista” para a “manutenção básica” e aquisição urgente de sistemas “off-the-shelf” (muitas vezes americanos), minando o objetivo de 60% de contratos domésticos até 2035.

A UE e os respetivos Estados-Membros, muito provavelmente, deparar-se com mais questões críticas, onde não vão ter muito tempo para decidir:  

“Perante estas circunstâncias, deve manter-se a estrutura de produção conforme previamente planeada, mas produzir em menores quantidades, ou será preferível investir menos outras áreas para reforçar/priorizar o investimento na defesa e na produção de armamento? Aumentar ainda mais a dívida pública será uma alternativa viável?”

No final, a questão da “rede” da EU que seria mais crucial de responder afirmativamente, é: “Existe alguma resposta coletiva/em bloco possível a este desafio, sem que nenhum “nó desta rede” vá agir de forma disruptiva?”

A “rede da rede” tem os seus pontos fortes, naturalmente. No entanto, o desafio sistémico subjacente a uma dinâmica deste género, é que um toque num ponto da rede, independentemente do tamanho do ponto (dependerá da forma como usa o seu peso para oscilar), pode fazer tremer a rede inteira.

Lisboa, 03 de março de 2026

Teresa Duarte Fernandes

EuroDefense-Jovem Portugal

CNN. (2026, 28 de Fevereiro). Maps: Where Israel and US strikes hit Iran. CNN Edition. https://edition.cnn.com/2026/02/28/middleeast/maps-iran-tehran-attack-vis-intl

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–  Estado-Maior da Armada. (2020). Plano Estratégico da Marinha 2040 (PEM 2040). Marinha Portuguesa.

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“A rede da rede”: Impacto do bombardeamento Americano e Israelita no Irão

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