Nos últimos anos, a política internacional tem sido caracterizada pelo surgimento de toda uma série de crises, que vão desde ameaças híbridas até guerras convencionais e multidomínio, como na Ucrânia. Em simultâneo, os desenvolvimentos políticos a nível interno em vários países ocidentais levaram a um acentuar de divergências ideológicas e programáticas sobre como os assuntos internacionais devem ser conduzidos. Esta conjuntura traduziu-se no questionar dos pressupostos que organizaram a arquitetura de segurança no continente europeu desde o final da Guerra Fria, em 1991, ou mesmo até desde a derrota da Alemanha nacional-socialista, em 1945.
Neste sentido, a União Europeia, num contexto de muito maior incerteza securitária e do regresso de uma lógica mais aberta de competição entre grandes potências, tem revelado — contrariamente ao que seria expectável há não tantos anos atrás — uma crescente ambição em tornar-se um ator relevante ou mesmo crucial na defesa e segurança da Europa face a toda uma série de ameaças, ou riscos, em seu redor, seja a ascensão da China, a guerra na Ucrânia (em curso há já quase quatro anos, ou mesmo doze, se se contar a partir da primeira anexação de parte do território ucraniano por parte da Rússia, em 2014), e as divergências da atual administração norte-americana, em termos ideológicos, em relação à União Europeia, o que relançou o debate sobre a autonomia estratégica do continente europeu.
Ora, apesar de tais intenções, a União Europeia, enquanto ator internacional difícil de definir ontologicamente, mantém ainda toda uma série de limitações que acabam por servir de entrave às suas ambições de encabeçar uma maior integração europeia na área da Defesa. Ao imperativo de uma Europa estrategicamente e, idealmente, militarmente autónoma, cabe opor a realidade de um continente constituído por Estados soberanos, de pequena a média dimensão no plano mundial (embora vários deles sejam grandes potências, ainda assim) com prioridades distintas, bem como ideias diferentes de como proceder a essa integração. A isto acrescem-se outros riscos que urge precaver para que a integração seja bem-sucedida, riscos de ordem mais política ou identitária: os antigos tabus em questões de Defesa não hão de desaparecer por completo de maneira súbita; por outro lado, é inevitável que uma maior concertação europeia na área da Defesa (sobretudo se se der fora do âmbito de uma organização internacional de cariz puramente intergovernamental) acabe por produzir contestação da parte de partidos políticos e movimentos radicais que têm ganhado bastante tração em vários países europeus.
Essa dinâmica, no entanto, insere-se num quadro maior, o da indefinição em relação àquilo que significa ser europeu. Sendo constituída por Estados-nação com diferentes visões para a Europa, identidades nacionais e memória histórica, a Europa teria de acautelar, neste processo de maior integração na Defesa, o ressurgimento, não propriamente dos fantasmas do passado, mas dos ecos destes últimos. Isto é, para prevenir, por exemplo, que o rearmamento da Alemanha faça despertar, a dada altura, demasiados receios nos vizinhos de que este país se torne ainda mais preponderante na política europeia do que já é, seria importante assegurar que a integração europeia na Defesa se faça num quadro mais consistente. No entanto, esse quadro multilateral seria precisamente uma oportunidade de ouro para quem contesta a ideia de “mais Europa”, ou sequer a ideia de Europa. Assim, e por improvável que seja que os ecos dos fantasmas do passado se tornem algo mais do que isso mesmo (ecos), é importante que no caminho para uma maior Europa da Defesa não sejam ignorados receios da opinião pública (e de decisores políticos também) em relação à integração europeia numa área que é cara à soberania dos Estados.
Certo é, porém, que, dado todo o conjunto de crises que a Europa enfrenta — uma guerra em larga escala no seu continente, fortes divergências transatlânticas, ressurgimento em força de lógicas de caráter antidemocrático um pouco por todo o mundo, clivagens entre Estados-membros, e a falta da tão falada autonomia estratégica —, a Europa da Defesa não é uma opção, nem muito menos algo trivial que possa ser adiado durante muito tempo. Por outro lado, uma União Europeia com papel crucial como ator de segurança implica necessariamente uma capacidade maior dos europeus de assegurar a paz, ou, quando muito, de contribuir ativamente para restabelecer a paz no seu próprio continente de um modo o mais autónomo possível em relação a atores de outros continentes. Ou seja, essas duas dimensões, autonomia estratégica e papel de ator de segurança, são indissociáveis: investir numa implica, a prazo, investir na outra. Urge, então, projetar e aplicar formas de evitar redundâncias, coordenar investimentos em armamento e estabelecer uma arquitetura para forças conjuntas europeias.
Em suma, pensar uma União Europeia como entidade com verdadeira capacidade de atuar no domínio da Defesa, noção pouco discutida há relativamente pouco tempo, e em seguida transportar essa ideia para o mundo real é um desafio urgente, dadas as circunstâncias. Pese essa pertinência, estabelecer de maneira sustentável a existência de uma Europa da Defesa só será possível caso sejam tidas em conta dimensões que se prendem com a política interna dos Estados-membros, as relações que estes mantêm uns com os outros — bem como as expectativas que têm uns dos outros — e até mesmo da própria ideia de Europa, por muito indefinida que possa ser, em termos identitários.
Lisboa, 06 de março 2026
Daniel Tielas
EuroDefense-Jovem Portugal
Referências Bibliográficas:
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Kobzova, Jana. “Putin’s Longest War: Calling Time on Russia’s Endurance Myth – European Council on Foreign Relations.” ECFR, 16 Jan. 2026, ecfr.eu/article/putins-longest-war-calling-time-on-russias-endurance-myth/. Accessed 8 Feb. 2026.



