A proliferação de drones e a utilização de inteligência artificial tornou-se uma das imagens mais marcantes da guerra contemporânea. Nos últimos anos, sistemas relativamente simples e baratos passaram a desempenhar funções que anteriormente exigiam plataformas muito mais complexas: reconhecimento, aquisição de alvos, correcção de artilharia e ataque directo. A guerra entre a Ucrânia e a Rússia tornou este fenómeno particularmente visível. Drones comerciais adaptados, drones FPV (First-Person View são sistemas pilotados através de óculos que transmitem vídeo em tempo real, permitindo ao operador ver como se estivesse a bordo do aparelho), armados com explosivos, e munições loitering (drones que sobrevoam uma área durante algum tempo à procura de um alvo, atacando-o por impacto explosivo assim que o detectam) passaram a operar em grande número ao longo da linha da frente. A difusão destes sistemas demonstra como tecnologias relativamente acessíveis podem alterar significativamente a forma como as operações militares são conduzidas nos níveis táctico e operacional.
Entre as evoluções mais discutidas neste domínio está o conceito de drone swarm. Em termos gerais, um swarm refere-se à coordenação de múltiplos drones que operam em conjunto para cumprir uma missão comum. Em vez de um operador controlar individualmente cada plataforma, software de coordenação e algoritmos permitem que vários drones partilhem informação, distribuam tarefas e executem operações de forma coordenada. O desenvolvimento recente de inteligência artificial tem sido central para esta evolução. Sistemas de IA permitem processar grandes quantidades de dados provenientes de sensores, identificar padrões no ambiente operacional e ajustar o comportamento dos drones durante a missão. Na prática, isto permite que um número relativamente pequeno de operadores controle múltiplos sistemas ao mesmo tempo ou que determinados aspectos da operação sejam executados de forma parcialmente autónoma.
A lógica estratégica por detrás destes sistemas baseia-se em dois princípios clássicos da guerra: massa e saturação. Conforme Carl von Clausewitz, a massa (ou superioridade numérica) é um princípio fundamental da estratégia, servindo para concentrar força superior num ponto decisivo. Já a saturação ocorre quando o volume de ataques excede a capacidade de reacção das defesas adversárias. Durante décadas, muitas forças armadas privilegiaram plataformas altamente sofisticadas e extremamente caras. A integração de inteligência artificial em drones relativamente simples abre a possibilidade de gerar massa militar de forma diferente. Em vez de poucos sistemas complexos, um grande número de drones baratos pode ser coordenado para produzir efeitos colectivos significativos tanto na ofensiva como na defensiva. Enxames de drones podem atacar simultaneamente um alvo, aproximar-se por diferentes direcções ou saturar sistemas de defesa aérea. Esta lógica cria também uma assimetria de custos: plataformas relativamente baratas podem ameaçar sistemas muito mais caros.
A guerra na Ucrânia oferece um exemplo particularmente claro desta dinâmica. Ambos os lados utilizam drones em grande escala para vigilância, aquisição de alvos e ataques directos. Pequenos drones FPV tornaram-se uma presença constante ao longo da linha da frente, sendo utilizados para atacar veículos blindados, posições defensivas ou equipas de artilharia. O resultado é um campo de batalha caracterizado por uma visibilidade quase permanente, em que qualquer movimento pode ser rapidamente identificado e potencialmente atingido.
Paralelamente, várias iniciativas procuram desenvolver formas de coordenação mais avançadas entre drones, incluindo software que permite operar múltiplos sistemas em conjunto ou integrar níveis crescentes de automação na execução das missões. A inteligência artificial desempenha um papel particularmente importante neste processo porque permite lidar com o volume de informação e a complexidade operacional associados ao uso de múltiplos drones. Algoritmos de IA podem ajudar a analisar imagens recolhidas por sensores, identificar alvos potenciais, optimizar rotas de aproximação ou coordenar o comportamento de diferentes plataformas dentro de um grupo. Em ambientes de guerra electrónica, a autonomia parcial também pode permitir que drones continuem a operar mesmo quando as comunicações com o operador humano são degradadas ou interrompidas.
Apesar da atenção mediática que os drone swarms têm recebido, é importante não exagerar o grau de transformação que representam. Muitos dos sistemas actualmente utilizados no campo de batalha ainda dependem fortemente de operadores humanos e de infra-estruturas de comunicação relativamente vulneráveis. A guerra electrónica continua a ser um obstáculo importante, e muitas operações que são descritas como enxames consistem, na prática, em múltiplos drones operados simultaneamente por equipas humanas.
Esta realidade sugere que a introdução de drones e inteligência artificial deve ser interpretada à luz de uma distinção clássica da teoria estratégica: a diferença entre a natureza da guerra e o seu carácter. Como argumentava Carl von Clausewitz, a natureza da guerra permanece relativamente constante porque deriva da interacção entre violência organizada, incerteza e objectivos políticos. O que muda ao longo do tempo é o carácter da guerra: isto é, as formas específicas que a guerra assume em cada período histórico. De forma semelhante, Colin S. Gray sublinhou repetidamente que novas tecnologias podem alterar profundamente os métodos de combate, mas não transformam a lógica fundamental da guerra enquanto instrumento político.
A integração de drones e inteligência artificial parece enquadrar-se precisamente neste padrão histórico. Estes sistemas podem alterar significativamente o carácter da guerra ao expandir a vigilância do campo de batalha, ao permitir novas formas de saturação e ao reduzir o custo de gerar poder de fogo. A coordenação de múltiplos drones através de software avançado ou algoritmos de inteligência artificial pode aumentar a velocidade das operações e criar formas de pressão sobre o adversário. No entanto, estes desenvolvimentos continuam a operar dentro de uma lógica estratégica familiar: competição entre adversários, adaptação tecnológica contínua e procura de vantagens operacionais.
Em última análise, os drone swarms e a integração de inteligência artificial não substituem as forças convencionais, mas complementam-nas. Blindados, artilharia, infantaria, aviação e espaço continuam a desempenhar papéis centrais nas operações militares. O impacto principal destas tecnologias pode residir antes na transformação da economia da guerra e na forma como a força é gerada e empregue. Tal como aconteceu com outras inovações tecnológicas ao longo da história, os drones e a inteligência artificial estão a modificar o carácter da guerra, mas a sua natureza fundamental permanece largamente inalterada.
Lisboa, 16 março 2026
Pedro Miguel Almeida
EuroDefense-Jovem Portugal
Referências:
Clausewitz, C. von. (2022). Da Guerra. Relógio D’Água. (Obra original publicada em 1832).
Clover, C., & Miller, C. (2024). Russia’s drone swarms pierce Ukraine’s defences at record rate. Financial Times. https://www.ft.com/content/1a19df67-3453-4a16-abf1-9fda36142f4b
Gray, C. S. (2015). The Future of Strategy. Polity Press.
MacDonald, A. (2025). AI-Powered drone swarms have now entered the battlefield. The Wall Street Journal. https://www.wsj.com/world/ai-powered-drone-swarms-have-now-entered-the-battlefield-2cab0f05
Pettyjohn, S. L. (2024). Evolution not revolution: Drone warfare in Russia’s 2022 invasion of Ukraine. Center for a New American Security.
Scharre, P. (2018). Army of none: Autonomous weapons and the future of war. W. W. Norton & Company.


