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Quem acompanha as dinâmicas da segurança internacional percebe que as guerras contemporâneas já não se manifestam apenas através do movimento de forças militares ou da ocupação de território. O poder estratégico mede-se também pelo controlo de cadeias de abastecimento, patentes tecnológicas, minerais críticos e infraestruturas industriais aparentemente civis. É neste contexto que o conceito de de-risking ganhou centralidade no pensamento estratégico ocidental face à República Popular da China.

Ao contrário do decoupling total, economicamente impraticável para economias profundamente interdependentes, o de-risking procura reduzir vulnerabilidades específicas em setores considerados críticos para a segurança nacional. A lógica tornou-se particularmente evidente após a invasão russa da Ucrânia, que demonstrou como dependências económicas e energéticas podem ser convertidas em instrumentos de pressão estratégica.

Para compreender a preocupação ocidental, é necessário olhar para a estratégia chinesa de Fusão Civil-Militar (Military-Civil Fusion). Ao longo das últimas décadas, Pequim desenvolveu mecanismos legais e institucionais que facilitam a integração entre inovação civil e modernização militar. Na prática, tecnologias desenvolvidas por empresas privadas ou centros de investigação podem ser aproveitadas para reforçar as capacidades do Exército de Libertação Popular. Isto significa que áreas como Inteligência Artificial, computação quântica, semicondutores ou biotecnologia deixaram de ser apenas setores económicos: passaram a integrar diretamente a competição estratégica entre grandes potências.

O paradoxo europeu emerge precisamente aqui. Enquanto procura reduzir a dependência militar histórica dos Estados Unidos e desenvolver uma maior autonomia estratégica, a Europa descobre simultaneamente novas vulnerabilidades estruturais em relação à China. Um exemplo particularmente revelador surge na produção de munições de artilharia de 155 mm. Várias empresas europeias de defesa dependem do cotton linters importado da China para a produção de pólvora, o que significa que uma interrupção prolongada do fornecimento poderia afetar diretamente a capacidade europeia de sustentar produção militar em larga escala.

A vulnerabilidade torna-se ainda mais evidente no domínio dos minerais críticos. Sistemas militares avançados, radares, sensores, munições guiadas, satélites ou aeronaves como o F-35 dependem fortemente de elementos de terras raras, gálio, germânio e outros materiais estratégicos. Atualmente, a China domina grande parte da capacidade global de processamento destes recursos, incluindo o refino mundial de terras raras pesadas utilizadas em aplicações industriais e militares críticas. A própria União Europeia reconhece esta dependência no âmbito do Critical Raw Materials Act, que estabelece como objetivo que, até 2030, nenhum material estratégico dependa mais de 65% de um único país terceiro.  

A resposta europeia já começou. A NATO publicou um roteiro dedicado à segurança das cadeias de abastecimento da defesa, enquanto a União Europeia procura acelerar projetos de mineração, refinação, reciclagem e armazenamento estratégico de matérias-primas críticas. O problema é que estas iniciativas enfrentam limites estruturais difíceis de ultrapassar rapidamente. Abrir minas demora anos, construir capacidade de refinação exige investimentos massivos, e a reciclagem continua insuficiente para responder à procura. Mesmo os esforços de diversificação podem apenas substituir uma dependência por outra, deslocando-a para parceiros como Austrália, Canadá ou países africanos politicamente instáveis.

Existe ainda uma contradição mais profunda no próprio conceito de de-risking. As economias ocidentais procuram reduzir vulnerabilidades sem abdicar dos benefícios da globalização. No entanto, as cadeias de valor contemporâneas foram construídas precisamente sobre décadas de interdependência económica e especialização internacional. Em muitos casos, separar eficiência económica de segurança estratégica revela-se extremamente difícil. A Europa quer simultaneamente transição energética, modernização militar, autonomia industrial e contenção de custos, objetivos que nem sempre são compatíveis entre si.

No fundo, o debate sobre autonomia estratégica europeia já não diz apenas respeito a carros de combate, aviões ou efetivos militares. Diz respeito à capacidade de controlar os recursos, a indústria e as cadeias logísticas necessárias para sustentar poder no longo prazo. Num sistema internacional cada vez mais competitivo, a soberania mede-se menos pelo discurso político e mais pela capacidade concreta de resistir a pressões externas sem comprometer a própria base industrial e tecnológica.

Lisbon, 20th of May, 2026

Pedro Miguel Almeida

EuroDefense Jovem – Portugal

Bibliografia

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Hackett, J., Sabatino, E., Bint, M., Naradichiantama, D., Gjerstad, M., Bentham, J., Fischbach, J., Bearn, L., & Clavilier, Y. (2025). Critical raw materials and European defence. The International Institute for Strategic Studies.

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O Paradoxo da Autonomia: A Dependência Silenciosa da Defesa Europeia

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