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A Crise da Ucrânia e da Europa

A crise que atualmente se vive na Ucrânia é um sintoma de que ainda existem feridas por sarar após a queda da União Soviética na Europa. Por se tratar de um conflito no continente europeu, isso representa, inevitavelmente, uma crise para todos os seus países que, apesar de lograr o seu longo período de paz, não impede que milhões de pessoas vivam na miséria e com medo das consequências de conflitos armados. Aconteceu logo após a queda da União Soviética com a guerra dos Balcãs, na Geórgia e, nos últimos anos, na Ucrânia.

A Ucrânia, um extenso país com uma área maior do que França e com mais de 41 milhões de habitantes, vive numa indefinição política desde a sua independência em 1991. Divide relações com a União Europeia e a Federação Russa, essa indefinição, resultou numa das mais violentas manifestações vividas. O desespero dos ucranianos ao verem o seu presidente Viktor Yanukovych rejeitar um acordo económico para a integração da União Europeia e a estreitar outros acordos com a Rússia, levou a que muitos saíssem à rua no ano de 2014 e tornassem aquelas manifestações um mote para a mudança. Infelizmente, o alargado período de manifestação, aliado à excessiva força policial, ditou a saída do presidente que, conforme seria de esperar, se exilou na Rússia.

Em resposta à derrota do governo perante os protestos, Vladimir Putin decide hostilizar ainda mais o conflito dando força aos separatistas pró-Russos. A anexação de territórios e a concessão de material militar sofisticado fizeram deste conflito uma novidade no continente europeu desde a Segunda Guerra Mundial e da Guerra dos Balcãs. A forte presença russa e fraca ou quase omissa resposta do bloco ocidental, tem dado a este conflito uma ideia de que a Federação Russa está disposta a atuar e que a sua capacidade de intimidar os seus adversários é real.

Esta crise e as suas movimentações foram úteis para a definição das novas guerras, mais concretamente no conceito de guerras híbridas. Na Cimeira de Gales, da NATO (Organização do Tratado Atlântico Norte), esta abordagem russa foi definida como uma futura ameaça à aliança, onde movimentos civis e paramilitares apresentam capacidades acima do desejável, definindo a presença russa no conflito enquanto híbrida. (Fernandes, 2016)

As imagens do combate que correram o mundo só podem chocar qualquer pessoa e denunciar claramente uma de duas hipóteses, ou a incapacidade da Rússia conter a proliferação dos seus sistemas militares ou a sua intervenção direta no conflito. Desde os carros de combate, aos sistemas mísseis aéreos que ditaram a queda do avião comercial Malaysian Airlines MH17, às fardas militares usadas pelos civis denotam a robustez e capacidade militar digna de um Estado e não de forças paramilitares. Tudo isso evidenciou, direta ou indiretamente, a participação russa. Foi preciso sentarem-se à mesa França, Alemanha, Rússia e Ucrânia, para que os Acordos de Minsk, em 2015, acabassem com o uso de armamento pesado, num claro aviso aos principais financiadores do conflito.

A todas estas ameaças hostis, a União Europeia precisava de uma resposta afirmativa e também ela dissuasora. Mais uma vez, no seio da NATO isso foi possível ainda que de forma subtil, batalhões e artilharia fosse estacionada na Polónia num esforço conjunto de diversos países para que o inimigo se sentisse “minimamente” intimidado. Mas amenizar o conflito, não significa que este termine. A presença disfarçada e híbrida dos russos, não deixou de existir, diversos ciberataques e um conjunto de forças paramilitares bem fortes no combate contra a Ucrânia, assim como as regiões anexadas não deixaram de viver na miséria e com um constante perigo de conflitos armados.

Estamos em 2021, o conflito para muitos ainda está longe de terminar. Estima-se que mais 3,5 milhões de pessoas sejam afetadas diretamente pelo conflito e necessitem de assistência humanitária. O terreno contém inúmeros resíduos explosivos que se tornam numa das causas de morte daqueles territórios, as pessoas continuam a envelhecer e esta já é considerada a crise humanitária “mais velha” do mundo.

A par de toda esta realidade militar, a União Europeia continua a desempenhar as suas funções conforme dita a regra. As negociações para a Ucrânia cumprir os requisitos económicos à entrada na União Europeia estão em vigor e uma vasta ajuda financeira tem sido benéfica para a recuperação do país, assim como a abertura do país à União. Não há dúvidas de que pertencer à União Europeia tem consequências muito vantajosas para os ucranianos, assim como para os europeus. Existem apenas alguns pontos onde a União ainda falha e insiste em continuar a falhar, é na defesa dos seus cidadãos e aliados. Neste conflito, muitos ucranianos deram a sua vida pela União Europeia, lutaram e gritaram pelas suas ruas por nós, ergueram bem alto a bandeira azul com as estrelas circulares com a ambição de um dia poderem fazer também parte dela. Mas não tiveram a resposta que desejavam, ainda que as palavras duras dos líderes europeus para os que oprimiam a população ucraniana pró-europa, fizeram-no sentados nas suas secretárias, não auxiliaram ou se impuseram aos que diariamente atacaram civis inocentes. Continuamos a assistir distantes às anexações ilegais da Rússia do território e apenas com batalhões norte-americanos estacionados na Europa, conseguimos dissuadir a ameaça russa.

É urgente falarmos do futuro da Europa e mais ainda, de reforçarmos a posição conjunta com os Estados Unidos da América. O seu atual Presidente Joe Biden, não se apresenta tolerante às ameaças russas em locais soberanos, como é o caso da Ucrânia. Numa altura em que a NATO decide abandonar a missão do Afeganistão e reforça a sua posição na Ucrânia, fazendo-nos recordar a história. O Afeganistão foi invadido numa das últimas movimentações hostis da União Soviética, em 1979, uma última tentativa de se afirmar militarmente na sua vizinhança, antes de colapsar. Agora, esse território após 20 anos de intervenção da NATO, parece estar em condições para retomar a sua autonomia, é tempo do bloco ocidental preocupar-se em mitigar as mais recentes ofensivas russas, pois a contestação política interna a Vladimir Putin, a fragilidade económica e a crise demográfica, ao qual acresce a tentativa desmedida dos russos para fracionar o bloco ocidental (eleição de Donald Trump, Brexit e intervenção nas eleições) não têm dado bom ar aos tempos que se avizinham.

Passados sete anos e devido à fraca capacidade de atuar em tempo, resta-nos reagir à mínima ofensa das liberdades e direitos humanos no território Ucraniano. A União Europeia deve orgulhar-se de erguer a mesma bandeira que os ucranianos ergueram quando iniciaram as suas manifestações em 2014. Uma bandeira que representa ideais democráticos, de um mundo livre e respeitador dos direitos humanos. Enquanto não conseguirmos que os países vizinhos ergam esses princípios, não podemos estar confortáveis e expectantes que a migração, muita dela em estatuto de refugiado, termine.


16 de abril de 2021

Miguel Carvalho Gomes
Coordenador da EuroDefense Jovem-Portugal


Fontes:

Conflict in Ukraine. Council on Foreign Relations: https://www.cfr.org/global-conflict-tracker/conflict/conflict-ukraine

Ukraine: Conflict at the Crossroads of Europe and Russia. Council on Foreign Relations: https://www.cfr.org/backgrounder/ukraine-conflict-crossroads-europe-and-russia

Fernandes, H. (2016). As Novas Guerras: O Desafio da Guerra Híbrida. Revista de Ciências Militares, novembro de 2016, IV (2), pp 13-40: https://www.ium.pt/s/wp-content/uploads/CIDIUM/Revista%20Ci%C3%AAncias%20Militares/RCM%20Vol.%20IV%20N.%C2%BA2%20-%20Hugo%20Fernandes%20-%20nov.%202016%20-%20As%20Novas%20Guerras%20…%20(PT).pdf

Facts and Figures about EU-Ukraine Relations: https://eeas.europa.eu/sites/default/files/eap_factsheet_ukraine_eng_web.pdf

Ukraine. Comissão Europeia, 06/10/2020: https://ec.europa.eu/echo/where/europe/ukraine_en

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