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A fatalidade das atividades iranianas em solo americano e europeu

Para além de Salman Rushdie

O mais recente esfaqueamento do escritor Salman Rushdie[1] expõe os verdadeiros efeitos que uma ideologia violenta e totalitária pode exercer sobre nos mais comuns dos homens. Numa altura em que o Presidente do Irão, Ebrahim Raisi, se apresenta como disposto a recuperar um acordo nuclear com a condição de os EUA (Estados Unidos da América) não voltarem a sair de um tal acordo[2], somos da opinião de que devemos explorar pelo menos três vertentes da relação que o Irão tem vindo a estabelecer com Portugal e os seus aliados: a história do acordo nuclear com o Irão (ou Plano de Ação Conjunto Global), a política interna do Irão (sobretudo o período posterior a 1979, ano que marcou a queda do regime do Xá do Irão) e as atividades transfronteiriças do Irão. O autor do artigo optou por se centrar no último ponto, esperando apresentar exemplos significativos e conseguindo explicitar bem o padrão de interferência do Irão em territórios distantes dos seus países vizinhos. O autor não minimiza a influência que o Irão tem exercido sobre países tão próximos do mesmo como o Líbano, a Síria, Israel, Iraque e Iémen, mas escolheu o desafio de tentar demonstrar que a política externa do Irão também não tem repercussões insignificantes nos continentes europeu e americano.

Sashram Poursafi, um membro da força paramilitar iraniana Exército dos Guardiães da Revolução Islâmica do Irão (segundo oficiais americanos), foi acusado de ser o mentor de um plano para assassinar John Bolton, o antigo conselheiro de segurança nacional do governo americano[3]. A tentativa de assassínio de um dos mais controversos funcionários da administração Trump, segundo o FBI, trata-se de uma retaliação a um ataque aéreo (de iniciativa americana) desencadeado no início do ano de 2020 que terminou a vida de Qassem Soleimani, o número um da Força Quds, uma unidade especial do Exército dos Guardiães da Revolução Islâmica do Irão.

Para fundamentar a afiliação de Poursafi ao Exército dos Guardiães da Revolução Islâmica do Irão, as autoridades referiram que este se encontrava em fadigas e que tinha referências ao Irão e a Qassem Soleimani na sua posse. Também segundo o Departamento de Justiça, o plano foi elaborado no Inverno do ano passado: Sashram Poursafi terá requisitado a um residente anónimo nos EUA que conheceu nas redes sociais para tirar fotografias a Bolton para um livro que supostamente estava a escrever. Esse residente, por sua vez, apresentou alguém disposto para colaborar a Poursafi, que se revelou mais tarde ser uma fonte interna do FBI, que acedeu ao pedido de que Bolton fosse “purgado” ou “eliminado”[4].

Numa análise retrospetiva e conhecendo todo o envolvimento que Soleimani teve no desenrolar de todos os conflitos que atualmente assolam o Médio Oriente (e não só), é difícil não compreender ou mesmo não simpatizar com o tweet que Bolton fez logo após o ataque aéreo dirigido à então principal figura da força paramilitar iraniana: “Espero que este seja um primeiro passo para a mudança de regime em Teerão”[5]. Para ficarmos com uma ideia mais robusta da relação do Irão com o Ocidente, registemos a afirmação do Procurador-Geral Adjunto Matthew Olsen: “Esta não foi uma ameaça ociosa. E esta não é a primeira vez de nós descobrimos atos descarados pelo Irão destinados à vingança contra indivíduos nos EUA”[6].

Só para vermos mais nitidamente o respeito que Soleimani continua a ter entre os mais dos mortais no Ocidente, podemos ir mais atrás até Março de 2022, quando uma mulher de Las Vegas esfaqueou um homem para se vingar da morte do militar iraniano[7]. Segundo as autoridades, a suspeita, Nika Nikoubin, conheceu a vítima na app de encontros Plenty of Fish, com quem combinou um encontro no hotel Sunset Station, em Las Vegas. Durante os atos sexuais, Nikoubin esfaqueou duas vezes a vítima no pescoço. Não nos conforta nada que Nikoubin tenha admitido que apenas queria ferir a vítima. O que deve ficar registado é que a própria admitiu que esfaqueou a vítima “por vingança contra as forças dos Estados Unidos pelo assassínio de Qasem Soleini em 2020”[8].

Ainda sobre os EUA, o Irão também terá atingido o ambiente de um bem reputado restaurante italiano em Washington DC, o Cafe Milano. Em 2011, Qasem Soleimani foi responsável pela elaboração de um plano muito típico de filmes noir, neo-noir e de espionagem. O não-concretizado bombardeamento teria como alvo Adel al-Jubeir, o então embaixador da Arábia Saudita nos EUA e um cliente regular daquele restaurante[9]. Mais uma vez, apesar de a mente de Soleimani se encontrar extremamente implicada nestas tragédias, esta história centra-se em Manssor Arbabsiar, um vendedor de carros usados irano-americano residente no Texas. Arbabsiar tinha ligações muito fortes ao atual establishment iraniano: tinha um primo numa posição elevada da hierarquia das Forças Quds, que foi justamente quem o recrutou para identificar possíveis cúmplices dispostos a encarregarem-se de uma investida de tal envergadura. Enquanto empresário residente em Corpus Christi, no Texas, costumava ir ao México para finalidades de negócio. Foi a sul da fronteira entre os EUA e o México que Arbabsiar abordou um indivíduo que identificou como sendo um membro de um cartel de tráfico de drogas e lhe questionou sobre a sua experiência com explosivos, segundo informações judiciais. Após um acordo inicial, o par foi combinando encontros para estabelecer estratégias e recompensas. O preço pelo atentado ficou acordado em 1,5 milhões de dólares. Analisando todos os riscos possíveis, Arbabsiar não hesitou em afirmar que “o assassínio tinha de ir em frente, mesmo que causasse vítimas em massa”[10].

Em 2013, Manssor Abrabsiar foi condenado a vinte e cinco anos de prisão, que havia sido detido após o FBI e a Drug Enforcement terem revelado suspeitas sobre as suas visitas ao México e os seus contactos com um cartel de droga mexicano[11].

Em Abril do presente ano, fontes diplomáticas informam-nos de que foi detido um operativo das Forças Quds acusado de conspirar homicídios na Turquia, na Alemanha e na França e que confessou que tinha sido encarregue de organizar o assassinato de um cidadão israelita empregado no consulado israelita em Instanbul, de um general americano na Alemanha e de um jornalista francês. Não houve relevação das identidades dos alvos nem dos motivos pelos quais se encontravam na mira deste operativo[12].

O jornalista Mohsen Sazegara, residente nos EUA, concorda com a possibilidade de todos estes atentados (tentados ou concretizados) estarem associados à promessa feita pelo Irão de se vingar do assassinato perpetrado em 2020 do Comandante das Quds Quasem Soleimani[13]. Esta convicção é reforçada pelo facto de um dos alvos do acusado ter sido precisamente um general americano. 

Mais uma vez, as mesmas fontes referiram que o acusado pretendia utilizar contactos de pessoas associadas ao tráfico de droga para consumar os assassinatos e, além disso, que era membro da Unidade 840 da Força Quds, responsável pela condução de operações contra alvos ocidentais e opositores políticos iranianos. Sem menção conhecida até à atualidade nos meios de comunicação iranianos, a Unidade 40 chegou a ser mencionada nos meios de comunicação israelitas aquando da acusação feita pelas Forças Armadas Israelitas de que essa unidade estava a colocar explosivos na fronteira síria[14].

Com a informação que temos em mão, não devemos discordar do analista político residente nos EUA Al Afshari, quando este comenta que o Exército dos Guardiães da Revolução Islâmica é atualmente uma “organização mafiosa” proveniente de uma “entidade islâmica fundamentalista xiita”. Nem seria preciso adicionar que “utiliza traficantes de droga e gangues criminosos para evitar ser responsabilizado diretamente pelas suas operações terroristas”[15].

Há quase dois anos atrás (Dezembro de 2020), os serviços secretos iranianos revelaram ter descoberto uma rede de terror vinculada ao Ministério da Inteligência e da Segurança Nacional incumbida de raptar ou assassinar dissidentes iranianos, sendo que o canal oficial do governo turco (TRT World) os responsabiliza pelo rapto de Farajollah Chaab, um antigo líder de um movimento separatista iraniano[16].

Em jeito de conclusão, podemos observar que, até à atualidade, Teerão dá primazia a ataques que sejam realizados através de indivíduos ou grupos algo inclinados ou predispostos a obedecerem às suas pretensões ideológicas e certamente expansionistas. O que se passa em Teerão simplesmente não fica no Irão, pelo que os governantes desse país são obstinados na perseguição de pessoas que revelem a mínima reserva quanto ao status quo iraniano ou que sejam contrários aos interesses e sensibilidades dos ayatollahs. Devemos, assim, estar atentos ao próximo acordo que estivermos a pensar fazer com a república islâmica xiita.


30 de novembro de 2022

Lourenço Ribeiro
EuroDefense Jovem Portugal

                                                  


[1] https://www.outlookindia.com/national/salman-rushdie-stabbing-what-is-a-fatwa-and-why-does-satanic-verses-author-face-one–news-220236

[2] https://www.reuters.com/world/middle-east/iran-president-repeats-call-nuclear-deal-guarantees-ahead-un-visit-2022-09-19/

[3] https://apnews.com/article/middle-east-iran-national-security-john-bolton-government-and-politics-4552020a58966ac53f501ca4dc39494f

[4] https://apnews.com/article/middle-east-iran-national-security-john-bolton-government-and-politics-4552020a58966ac53f501ca4dc39494f

[5] https://apnews.com/article/middle-east-iran-national-security-john-bolton-government-and-politics-4552020a58966ac53f501ca4dc39494f

[6] https://apnews.com/article/middle-east-iran-national-security-john-bolton-government-and-politics-4552020a58966ac53f501ca4dc39494f

[7] https://www.fox5vegas.com/2022/03/14/las-vegas-woman-allegedly-stabbed-date-avenge-iranian-generals-death-report-says/

[8] https://www.fox5vegas.com/2022/03/14/las-vegas-woman-allegedly-stabbed-date-avenge-iranian-generals-death-report-says/

[9] https://www.washingtonpost.com/history/2020/01/04/iran-agents-once-plotted-kill-saudi-ambassador-dc-case-reads-like-spy-thriller/

[10] https://www.washingtonpost.com/history/2020/01/04/iran-agents-once-plotted-kill-saudi-ambassador-dc-case-reads-like-spy-thriller/

[11] https://www.iranintl.com/en/202204301212

[12] https://www.iranintl.com/en/202204301212

[13] https://www.iranintl.com/en/202204301212

[14] https://www.iranintl.com/en/202204301212

[15] https://www.iranintl.com/en/202204301212

[16] https://www.iranintl.com/en/202204301212


NOTA:

  • O texto e as suas ideias são da inteira responsabilidade do seu autor, não vinculando a opinião do Centro de Estudos EuroDefense-Portugal.
  • Os elementos de audiovisual são meramente ilustrativos, podendo não existir ligação direta com o texto.
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