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Comunicação Não-Violenta

Uma ferramenta para as relações do dia-a-dia

Marta Vera-Cruz (Connecting with Empathy, mmveracruz19@gmail.com)

Valentina Bianchini (Connecting with Empathy, valentinab57@gmail.com)

“Para além das ideias de certo e errado, existe um campo. Encontrar-me-ei contigo lá.”

(Jalal ad-Din Muhammad Rumi, filósofo e poeta persa)


Provavelmente, esta é a primeira vez que ouve falar em comunicação não-violenta. Neste caso este artigo é sobretudo para si, mais do que para aqueles que já conhecem o modelo. Certamente os seus relacionamentos são importantes para si e gostaria de viver num mundo mais empático. Esse é também o nosso caso. Por isso vamos explicar o que é a comunicação não-violenta e falar um pouco sobre o nosso projeto Connecting with Empathy, um recém-nascido que temos vindo a tratar com muito carinho e em quem depositamos grandes esperanças.

Conexão é a palavra-chave

Comunicação não-violenta, também conhecida como CNV, é um modelo desenvolvido nos anos sessenta por Marshall Rosenberg[1], um psicoterapeuta americano. Rosenberg chamou-lhe “a linguagem da vida”, uma vez que nos ajuda a expressar aquilo que está vivo dentro de nós e, desta forma, a desenvolver uma conexão mais profunda connosco próprios e com os outros.

A CNV convida-nos a abandonar estereótipos, julgamentos e preconceitos, saindo da zona de conforto para nos centrarmos nas emoções e necessidades de um determinado momento. Este momento é uma situação que se torna desafiante, porque envolve dor ou outras emoções desagradáveis. Um conflito é bom exemplo desta situação, porque geralmente despoleta sentimentos desagradáveis. De acordo com a CNV, um conflito (interno ou interpessoal) é expressão de necessidades não atendidas. No cerne da CNV está a ideia de que todos os seres humanos partilham as mesmas necessidades básicas, que incluem necessidades físicas – tais como ar, comida, descanso – e um outro tipo de necessidades de nível mais subtil – tais como conexão, amor, reconhecimento e alegria de viver.

Quatro passos para expressar o que é importante para nós

Ao desenvolver a CNV, Marshall Rosenberg quis criar um “guia” que ajudaria as pessoas a comunicar as suas mensagens de uma forma que acolhesse conexão e compreensão[2]. Por este motivo, Rosenberg estruturou a CNV em 4 passos: (i) fazer uma observação, (ii) expressar as nossas emoções, (iii) expressar as nossas necessidades, e (iv) formular um pedido. O primeiro passo – observação – é uma descrição dos factos, que deverá ser imparcial e definida no tempo. O segundo e terceiro passos incluem a identificação das emoções que sentimos e o motivo pelo qual as sentimos (i.e., as necessidades não atendidas). Por último, o quarto passo é formular um pedido. Mas, atenção: fazer um pedido requer que estejamos prontos para aceitar quer um sim quer um não como resposta. Caso contrário, estaremos a fazer uma exigência. Vamos dar um exemplo de como os 4 passos podem funcionar, primeiramente apresentada de modo corrente (1) e de seguida apresentada segundo a CNV (2):

  1. “Sempre que chego a casa, cansada do trabalho, a cozinha está um caos. Eu já disse isto ao meu companheiro muitas vezes, mas ele parece não se importar. Estou exausta.”
  2. “Luís, esta semana cheguei várias vezes a casa cansada do trabalho e não tinha um copo limpo para beber água. O lavatório estava cheio de loiça suja que deixaste. Isto deixa-me frustrada e exausta, porque harmonia, higiene e beleza em casa são importantes para mim. Estás disposto a começar a lavar a tua loiça uma vez por dia?”

Na primeira situação os factos são descritos como os experimentamos na mente. Os termos são imprecisos, tais como “sempre que chego a casa”, e são feitos julgamentos, em vez de se explicar o que nos incomoda. Ao dizer-se que “a cozinha está um caos” estamos a expressar uma opinião sobre o estado da cozinha. Outra pessoa poderá ter uma opinião diferente.

Importa referir que não há absolutamente nada de errado com julgamentos. Porém, ao comunicarmos nestes termos, a probabilidade de passarmos a nossa mensagem, ou de o ouvinte empatizar com a nossa situação, é muito menor. É mais provável que quem nos esteja a ouvir adote uma postura defensiva.

Na segunda situação, antes de conversar com o Luís foi importante ponderar emoções e necessidades, arquitetando uma possível estratégia para resolver o conflito. Depois de expressar as emoções e necessidades ao Luis, a estratégia foi formulada através de um pedido. Não se sabe como o Luís irá reagir, mas o pedido abre a porta ao diálogo e à possibilidade de uma discussão conjunta de outras soluções.

O exemplo apresentado é apenas a ponta do iceberg da comunicação não-violenta. Existem muitas nuances nesta metodologia, que desde os anos sessenta tem vindo a ser testada em diferentes contextos. Efetivamente, para além de ser uma ferramenta de autoconhecimento e de resolução de conflitos, tem sido usada, por exemplo, como uma ferramenta para mediar reuniões de negócios, ou como ferramenta de peacemaking[3], para iniciar o diálogo entre as partes em disputa numa guerra.

Um projeto experimental

A nossa paixão pela CNV juntou-nos através de um amigo comum. A nossa opinião partilhada de que a mentalidade CNV é uma forma de desenvolvimento pessoal e de acolher melhores conexões nas nossas relações deu origem ao projeto Connecting with Empathy. Ao longo do tempo temos participado em cursos e workshops especializados, que têm tido um impacto muito positivo nas nossas vidas e nos tornaram bastante entusiastas sobre o tema. Daí até começarmos a organizar os nossos próprios workshops foi um pequeno passo.

Gostamos de chamar ao que fazemos comunicação consciente. Na nossa perspetiva, este conceito incorpora a mentalidade CNV e vai para além desta. Trazemos diferentes ferramentas, que provêm de outros ramos de conhecimento e que apoiaram o nosso processo de aprendizagem. Adicionalmente, temos usado a comunicação consciente não apenas para apoiar interações one-to-one, mas também para facilitar debates em grupo. Com Connecting with Empathy temos vindo a criar um espaço que pode ser usado como um laboratório de prática, onde se pode experimentar a sensação de comunicar de forma mais consciente. Usando diversas ferramentas para apoiar a transição para um novo estilo de comunicação, proporcionamos momentos de conexão e de exploração entre os participantes dos nossos workshops.


Rosenberg, M. (2005). Nonviolent Communication: A Language of Life. Encinitas, CA: PuddleDancer Press

Rosenberg, M. (2005). Speak Peace in a World of Conflict. Encinitas, CA: PuddleDancer Press


[1] Marshall Rosenberg (1934-2015) fundou e foi o Diretor de Serviços Educacionais do Centro de Comunicação Não-Violenta, uma organização internacional de promoção da paz. Durante a sua vida escreveu 15 livros, incluindo o best-seller “Nonviolent Communication: A Language of Life”, que vendeu mais de três milhões de cópias em todo o mundo, e “Speak Peace in a World of Conflict” , também um best-seller. Rosenberg cresceu num bairro problemático de Detroit e desenvolveu interesse por novas formas de comunicação, indutoras de alternativas pacíficas para a violência que encontrou. Este interesse conduziu em 1961 a um doutoramento em psicologia clínica pela Universidade de Wisconsin, onde estudou com Carl Rogers. Os seus estudos e experiência sequentes levaram-no a desenvolver o processo de Comunicação Não-Violenta (CNV), que usou pela primeira vez durante a década de 1960 em projetos governamentais de integração escolar, para treinar competências de mediação e comunicação.

[2]NVC guides us in reframing how we express ourselves and hear others. Instead of being habitual, automatic reactions, our words become conscious responses based firmly on an awareness of what we are perceiving, feeling, and wanting. We are led to express ourselves with honesty and clarity, while simultaneously paying others a respectful and empathic attention. In any exchange, we come to hear our own deeper needs and those of others. NVC trains us to observe carefully, and to be able to specify behaviours and conditions that are affecting us. We learn to identify and clearly articulate what we are concretely wanting in a given situation. The form is simple, yet powerfully transformative. As NVC replaces our old patterns of defending, withdrawing, or attacking in the face of judgment and criticism, we come to perceive ourselves and others, as well as our intentions and relationships, in a new light.” (Rosenberg, 2005, pag. 3)

[3] Peacemaking inclui medidas para resolver conflitos em andamento e envolve ação diplomática para trazer as partes hostis a um acordo negociado. (obtido em 18/12/2020 de https://peacekeeping.un.org/en/terminology).

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