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Guerra Híbrida VS Gibridnaya Voyna

Introdução

O ambiente moderno é desafiado por ameaças de natureza difusa e híbrida, intensificadas pelo desenvolvimento tecnológico e pela interdependência informática, que visam explorar as fraquezas de um país ou determinar o curso político do mesmo através da influência dos valores e princípios com recurso a novas formas de guerra.

O conceito de Guerra Híbrida não é novo e refere-se ao uso de meios não convencionais como parte de um leque diversificado de meios dentro de um determinado conflito. Podemos verificar a aplicação de estratégias híbridas no passado, nomeadamente na Revolução Americana (1775 – 1783), com a participação e envolvimento de milícias e, nas invasões napoleónicas, com as forças regulares britânicas a cooperar com guerrilhas (Hoffman, 2007).

O conceito ganhou particular expressão no conflito da Ucrânia em 2014, no qual a Rússia desenvolveu ações combinadas, com recurso a instrumentos de poder sincronizados, dirigidos e coordenados no mesmo espaço de batalha para alcançar efeitos sinérgicos nas diferentes dimensões física e psicológica do conflito, a utilização coordenada de tecnologia com métodos de mobilização, combinação de capacidades disruptivas com formas tradicionais, que foram intensificadas e aplicadas de forma melhorada na invasão da Ucrânia em 2022.

A Guerra Híbrida é, assim, a combinação de meios económicos, sociais, ciber, militares e políticos para atingir objetivos concretos. A estratégia não é nova e recorre a capacidades que não fazem parte da guerra tradicional para coagir ou subverter o inimigo.

Gibridnaya Voyna

O termo “Guerra Híbrida“ ou, no termo anglo-saxónico, “Hybrid Warfare” é a denominação militar ocidental para a “utilização combinada de meios convencionais e não militares” (Göransson, 2021).

Feita uma análise ao conceito russo podemos concluir que se trata de uma teorização totalmente diferente do conceito ocidental, ao invés podemos constatar que a doutrina russa tentou conceptualizar o termo de acordo com a experiência e o contexto político-militar russo e o próprio entendimento do fenómeno a que chamamos “guerra” (Fridman, 2018).

A análise russa é feita á luz do discurso e da experiência vivida durante a Guerra Fria e das ações militares realizadas por parte do ocidente. Hodiernamente, o conceito Gibridnaya Voyna tem na sua génese a ideia leninista de que existem “constant threats from abroad and within”, que representam uma ameaça á soberania russa (Nilsson, 2021).

Da análise da Guerra Fria e as causas da derrota soviética tem levado estrategas e doutrinadores a inovar em dois aspetos: primeiro, a destruição do espírito do adversário através da erosão da cultura, valores e autoestima; e um destaque especial para instrumentos políticos, informacionais e económicos em vez de apostar na força militar e nos danos físicos.

Enquanto que por um lado, o conceito Ocidental implica uma mistura de elementos, incluindo forças regulares e irregulares incorporadas numa combinação de métodos operacionais e táticos, por outro lado, o conceito russo defende um campo de batalha mais abstrato, em que as partes conflituantes procuram destruir a coesão sociocultural dos inimigos e proteger a sua própria,

Uma análise criteriosa ao conceito Gibridnaya Voyna evidencia a sua distinção relativamente ao termo americano Hybrid Warfare. Enquanto a teoria russa gira á volta de ideias abstratas e engloba a esfera da vida publica, a política, a economia, o desenvolvimento social, a cultura e o recurso direto á força militar convencional, o conceito americano é diferente e refere-se primordialmente a táticas militares e operacionais direcionadas e coordenadas dentro do campo de batalha principal para alcançar efeitos sinérgicos. Adicionalmente, enquanto o conceito de Guerra Híbrida Ocidental está mais relacionado com operações e táticas militares, o termo russo apresenta um conjunto de ideias mais amplo, envolve todas as esferas da vida pública do país e é caracterizado pelo seu principal objetivo em atingir as mentes humanas e por uma acentuada operação de informação e guerra psicológica (PSY-OPS).

A abordagem russa, portanto, não esta limitada á atividade militar no campo de batalha. O principal objetivo deste tipo de guerra é destruir o inimigo através das vias hibridas, tais como: a ideologia, a informação, o setor financeiro, a politica, ameaças diplomáticas em simultâneo com ameaças nucleares ou meios tecnológicos que arrasem os parâmetros socioculturais, enquanto consegue denegrir e enfraquecer a NATO; prejudicar e influenciar os governos pró-ocidentais; criar um precedente para a guerra; e anexar territórios com especial prevalência sobre países ex-soviéticos (Fridman, 2018).

O conflito de 2022

Estes são apenas alguns exemplos da panóplia de opções da guerra híbrida que a Rússia tem levado a cabo contra a Ucrânia nos últimos oito anos. Aquilo que agora se tornou noticia mediática tem sido a realidade ucraniana durante todo este tempo. Na Gibridnaya Voyna o importante são os métodos não militares que desempenham um papel fundamental. O essencial não reside na tomada de território, mas sim provocar e gerar influencia no interior do território adversário. Aquilo que se pretende é colocar a máxima pressão sobre a Ucrânia, em particular nos assuntos internos – com o objetivo de colocar os seus interesses em uníssono com os interesses russos. O que se pretende é aumentar o nível de fadiga até quebrar o nível de resistência.

A Ucrânia tem sido também alvo de ciberataques contra o Ministério da Defesa e contra os maiores bancos ucranianos, nomeadamente o PrivatBank e o JSC Oschadbank. Desde o início do conflito que as operações de informação tiveram uma função facilitadora das operações em Lugansk e Donetsk, enquanto o parlamento russo estava prestes a declarar as regiões como independentes.

Por outro lado, o conflito na Ucrânia em 2022 abre um novo capítulo no uso de forças convencionais numa Guerra Híbrida. Inicialmente verificamos que a Rússia deslocou quantidades massivas de forças convencionais para a fronteira com a Ucrânia e efetuou operações rápidas e em simultâneo com operações de informação na Rússia e na Ucrânia, tentando dissimular ao máximo a sua presença em solo ucraniano. Esta tática tem como principal objetivo a intimação e coerção política e serve de elemento dissuasor contra qualquer intervenção direta por parte do ocidente. Esta manobra serve também para mobilizar as atenções para a fronteira ucraniana enquanto as operações nas regiões mais significativas se desenvolviam.

Estas duas vertentes desempenham um papel fundamental nas operações russas e são os elementos principais da Guerra Híbrida russa. Estas manobras evidenciam a correlação entre a tecnologia e a Guerra Híbrida, assim como a importância de recorrer a todos os meios disponíveis e em simultâneo de forma coordenada.

A Guerra Híbrida russa do séc. XXI demonstra o predomínio dos meios não militares em simultâneo com uma injustificável destruição física, para obrigar a Ucrânia a aceitar as condições que a Rússia pretende – intensificando as ações em vésperas de negociação. Estas ações não militares russas podem incluir a pressão económica (em particular no setor energético), emissão de passaportes a refugiado que escolham a Rússia como o seu refúgio ou o recurso ao veto no Conselho de Segurança da ONU. Em suma a Federação Russa recorre a uma zona cinzenta, onde podemos incluir operações no ciberespaço, em simultâneo com a força convencional atacando de forma indiscriminada, para aumentar a probabilidade de sucesso. 

Apesar do conflito na Ucrânia ser predominantemente uma guerra física, são aplicados elementos informacionais, tornando o discurso estratégico crucial para criar a perceção ideal da guerra e abrir caminho a novas negociações.

Estratégia

Depois de uma análise ao conceito principal desta reflexão, resta deixar algumas considerações sobre o pensamento e a estratégia russa para o futuro, que acaba por resumir e oferecer uma possível explicação para o fim de uma longa e estável relação entre o Ocidente e a Rússia.

No dia 2 de julho de 2021, o Presidente Vladimir Putin promulgou a Estratégia Nacional de Segurança da Federação Russa 2021, que vem atualizar a versão adotada a 31 de dezembro de 2015.

Este documento descreve a postura estratégica e o posicionamento geopolítico da Rússia, é a base que serve de referência para todas as atualizações nos restantes domínios, incluindo a doutrina militar e a Política Externa.

O documento de Segurança de Moscovo demonstra a mudança estratégica da Rússia, com a intenção de prosseguir um caminho de forma individual no contexto internacional. Este novo paradigma pode significar um futuro muito instável, em particular na Região Polar. Moscovo posiciona-se no contexto internacional de uma forma totalmente inovadora, em consequência da crescente instabilidade geopolítica (Elizabeth Buchanan, RUSI).

A Estratégia de Segurança russa aponta para uma autonomização por parte de Moscovo e o seu isolamento como ator internacional, enquanto reforça os interesses e objetivos nacionais. Concomitantemente, podemos verificar que a Rússia está determinada em coexistir no atual sistema internacional enquanto defensora do Conselho de Segurança das Nações Unidas e o seu princípio basilar da “não interferência” nos assuntos internos de outro estado. Adicionalmente, podemos encontrar uma postura totalmente renovada e articulada com a sua estratégia para uma potencial independência.

A Estratégia Nacional de 2021 procura melhorar a capacidade de relacionamento entre estados, mas afasta-se dos ideais anteriores na qual a Rússia procurava saber como poderia aumentar os níveis de confiança, e com quem a Rússia poderia relacionar-se. Também demonstra vontade de aumentar a distância e o isolamento relativamente á Europa e aos Estados Unidos da América. Por outro lado, como ficou provado com a pandemia COVID-19, os estados são cada vez mais interdependentes uns dos outros e não conseguem prevalecer isolados na era da globalização. Esta realidade coloca um grande desafio quando consideramos os interesses estratégicos da Rússia no Ártico e na Antártica – duas zonas nas quais a cooperação e a colaboração internacional são particularmente cruciais – com um afastamento significativo de uma cooperação internacional com benefícios mútuos, para um posicionamento mais isolacionista de forma a garantir os interesses da Federação Russa na região.

Na versão de 2021 podemos constatar que as referências á Europa são totalmente inexistente e a sigla “USA” apenas é mencionada duas vezes. Na versão de 2015, existia uma vontade expressa para desenvolver parceria com os EUA em áreas e interesses mútuos e um desejo de reforçar a cooperação com os países europeus e a União Europeia.  Também prevalecia a aproximação com a NATO com o objetivo de reforçar a Segurança no Espaço Euro-atlântico. A relação de cooperação e parceria desapareceram e foram alteradas por uma visão “transitória” das relações internacionais. (Cooper, 2021).

No âmbito militar, o documento demonstra a preocupação relativamente aos EUA e a sua intenção de querer disponibilizar misseis de médio alcance na Europa e o receio dos Estados Unidos da América conseguirem desenvolver um sistema global de Defesa antimísseis.

Uma das diferenças que é salientada pelo professor na Universidade de Teerão, Dr. Jahangir Karami, entre o documento atual e a Estratégia de 2015 é a prevalência sobre os assuntos humanos, a sociedade e o desenvolvimento da população. Uma maior preocupação com a sociedade, as diferentes classes sociais, e em particular o apoio aos mais carenciados. A diferença reside no facto de que na anterior Estratégia existia a vontade, mas nunca tinha sido expressa, a qual foi dada especial atenção no documento de 2021. Também ficou estabelecida uma maior proteção das raízes espirituais e da tradição da Federação Russa. (Karami, Jahangir. 2021).

As tradições russas, espirituais e os valores morais, a cultura, a religião e o passado histórico da população são muito enfatizados na Estratégia Nacional de Segurança de 2021. Por outro lado, a estabilidade Estratégia e os assuntos estratégicos a nível global são priorizados no documento e os interesses russos nesses domínios são de particular importância.

Karami defende que a Segurança da Informação na Estratégia Nacional de 2021 reflete a atual situação na Rússia e o mundo do ciberespaço, da Internet e das Redes Sociais. Acrescenta ainda que este documento se preocupa com a Segurança Económica, o que demonstra a vulnerabilidade da economia russa em diversos domínios.

A última secção do documento é sobre a estabilidade estratégica onde existe a referência às Nações Unidas e pequenos apontamentos sobre a Zona Económica Eurasiana, poucas referências sobre a Organização do Tratado de Segurança Coletiva, a Bielorrússia é pouco referida, e a Organização para a Cooperação de Xangai parece não ser prioridade. Fica evidente que a relação com a China não é tao linear como se possa pensar e a Rússia está mais isolada com poucos amigos e aliados.

Conclusão

A estratégia híbrida russa e as táticas subversivas no conflito com a Ucrânia têm consequências no Ocidente. Efetivamente, terminou com o período de ausência de estratégia na Europa de Leste, causa de um prolongado período de détente após o fim da Guerra Fria, com implicações para a estratégia securitária, doutrina e na despesa da Defesa. Apesar do modus operandi na Ucrânia em 2022 ter semelhanças com a anterior guerra em 2014, a guerra atual teve um reflexo muito maior nos governos ocidentais devido á dimensão do pais, a sua localização, e a importância geoestratégica caso a sua adesão á União Europeia se concretize. No entanto, a evolução da denominada “operação especial” demonstra que a dependência russa em guerras por procuração, com recurso aos chechenos e à utilização da subversão política pode prolongar-se até conseguir destabilizar o inimigo.

Fica provada a importância da teoria desenvolvida por Nicholas Spykman, denominada “Teoria do Rimland”, em 1944. A tese de Spykman defende que o Poder está centrado na população e nos recursos da orla eurasiática, desloca a importância para os países fronteiriços com o Leste Europeu e a Rússia. Isto porque essa região é rica em recursos naturais e permite o contacto com outras regiões do mundo através dos mares. Spykman afirmou ainda que “quem controla o Rimland domina a Eurásia”, e continua “quem controla a Eurásia domina o destino do mundo” (Rattray, 2009).

Brezinski, Conselheiro de Segurança Nacional do Presidente dos EUA Jimmy Carter entre 1977 a 1981, chega ainda a afirmar que a primazia global norte americana seria diretamente dependente da capacidade de sustentar a sua proeminência na região eurasiana, neste sentido, afastar a Ucrânia da órbita de influência russa consolidaria a entrada da mesma na NATO, reduziria a Rússia a condição de potência asiática, sem projeção geopolítica na Europa, excluiria ainda a passagem russa para o Mar Mediterrâneo através do Mar Negro.


09 de maio de 2022

Rafael Silva

EuroDefense-Jovem Portugal


Referências

Buchanan, E. (2021). Russia’s 2021 National Security Strategy: Cool Change Forecasted for the Polar Regions. RUSI

Cooper, J. (2021). Russia’s updated National Security Strategy. NATO.

Fridman, O. (2018). Russian Hybrid Warfare: Resurgence and Politicisation. New York, NY: Oxford University Press

Göransson, M (2021). Hybrid Warfare: Security and Asymmetric Conflict in International Relations. Reino Unido: I.B. Tauris

Karami, J. (2021). An Analysis of 2021 Document of Russia’s National Security Strategy Document. Universidade Teerão

Nilsson, N. (2021). Hybrid Warfare: Security and Asymmetric Conflict in International Relations. Reino Unido: I.B. Tauris

Silva, J. (2021). Guerra Híbrida VS Gibridnaya Voyna– o conflito na Ucrânia: Lisboa: Universidade Católica Portuguesa

Hoffman. F. (2007). Conflict in the 21st Century: the rise of hybrid wars. Virginia, VA: Institute for Policy Studies


NOTA:

  • O texto e as suas ideias são da inteira responsabilidade do seu autor, não vinculando a opinião do Centro de Estudos EuroDefense-Portugal.
  • Os elementos de audiovisual são meramente ilustrativos, podendo não existir ligação direta com o texto.
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