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Hillary Clinton/Donald Trump – Relações transatlânticas e novos desafios aos europeus

Apesar de hoje, felizmente, todas as sondagens darem como certa a vitória de Hillary Clinton, julgo que não se devem esquecer as posições assumidas pelos candidatos durante a campanha eleitoral. Donald Trump não ganhará, como indicam as sondagens, mas nem por isso as suas posições e declarações populistas e nacionalistas deixam de merecer a concordância de muitos milhões de americanos que o seguem, e até de muitos que nunca nele votariam.

Na minha intervenção falarei sobre as posições dos candidatos relativamente a duas questões que interessam especialmente a Portugal e à Europa: por um lado, as declarações sobre a NATO e o papel dos EUA na segurança europeia; e, por outro lado, os importantes desafios que a nova presidência e a nova administração americana colocam aos europeus.

Em primeiro lugar, o que nos dizem os candidatos acerca do papel dos EUA na Aliança Atlântica?

Numa entrevista concedida ao The New York Times, na véspera da sua nomeação presidencial pelos republicanos, no dia 20 de julho – entrevista que foi exaustivamente analisada por think-tanks e comentadores europeus e americanos – Donald Trump voltou a sublinhar a linha dura que assumiu durante a campanha.

Nessa entrevista ele chegou a dizer que abandonaria a globalização a favor do nacionalismo americano, além de descrever como iria forçar os aliados a assumirem finalmente os custos da defesa que os Estados Unidos têm suportado ao longo de décadas, apelando a uma maior participação nas despesas militares (burden-sharing).

Sabemos que tem sido recorrente esta insistência dos EUA para que os aliados europeus reforcem as suas capacidades militares, alocando, pelo menos, 2% do PIB aos orçamentos da defesa, de acordo com os critérios de partilha de encargos assumidos no fim da guerra fria.

Até agora apenas 5 dos países europeus membros da NATO satisfazem este requisito (UK, Grécia, Polonia, França e Estónia). Este critério tem mesmo sido posto em causa, por aqueles que consideram que a meta de 2% do PIB é insuficiente e que a partilha de risco (risk sharing) deveria ser também um elemento necessário para avaliar as justas contribuições dos aliados para a segurança coletiva.

Mas Donald Trump não se limitou a dizer que “a NATO é obsoleta e extremamente cara para os EUA”, como fez da questão do financiamento da NATO e da ajuda militar americana um importante tema de campanha. Ainda ontem repetiu que os estados Unidos não podem continuar a suportar a defesa de uma lista de países, onde incluiu a Alemanha.

Por outro lado, ignora ostensivamente as recentes posições agressivas da Rússia que ameaçam seriamente os acordos com os Estados Unidos.

Moscovo suspende acordos nucleares e desloca mísseis

Como é sabido, nas últimas semanas, tem havido uma constante deterioração nas relações entre o Ocidente e a Rússia:

  • Moscovo suspendeu três acordos nucleares com Washington;
  • Deslocou mísseis com capacidade nuclear para Kaliningrado, um enclave russo no Báltico, entre a Lituânia e a Polonia, a uma curta distância da Alemanha;
  • Três navios de guerra russos, equipados com mísseis de cruzeiro, foram desviados do Mar Negro e posicionados no Mediterrâneo; e
  • os serviços secretos americanos dizem que hackers russos estavam por trás dos e-mails embaraçosos da campanha de Hillary Clinton.

Sem falar na Síria e no seu fortíssimo potencial de conflito entre os EUA e a Rússia.

Importa acrescentar que, segundo alguns especialistas, a suspensão dos acordos nucleares pode pôr em causa os tratados de desarmamento e não proliferação das armas nucleares, o que é gravíssimo e acontece pela primeira vez depois da guerra fria.

Mesmo assim, à pergunta sobre o que faria se a Rússia atacasse os países aliados do Báltico, Trump não hesitou em responder que só decidiria o auxilio americano depois de verificar “se os países atacados tinham cumprido as suas obrigações para com os EUA”.

Ou seja, para ele a América poderia não honrar o artigo V do tratado do Atlântico Norte que constitui desde sempre a pedra angular da Aliança Atlântica, segundo o qual um ataque a um Estado membro é um ataque contra todos.

Estas como muitas outras declarações foram repudiadas pelos próprios republicanos e do lado europeu poucos acreditam que Trump fosse capaz de prosseguir com estas ideias, se fosse eleito.

No entanto, na opinião de vários comentadores europeus, mesmo que Trump não ganhe, algum dano já foi feito, porque as suas declarações têm impacto sobre as expectativas das pessoas, tanto na opinião pública americana como junto dos europeus, e prejudicam objetivamente a relação transatlântica, que é baseada na confiança e no pressuposto de que temos uma ampla comunhão de interesses e valores.

Por outro lado, não podemos ignorar que esta visão de Donald Trump sobre as relações com os aliados europeus corresponde também a convicções de longa data de muitos americanos.

Hillary Clinton, por seu lado, reagiu a estas declarações, considerou-as repugnantes e disse que elas só encorajariam Moscovo.  Elogiou o papel da NATO e disse que o empenhamento dos Estados Unidos na Aliança Atlântica serve os interesses da América, devendo, por outro lado, ser reforçadas as relações com os países europeus com vista à criação de um grande bloco de oposição à ameaça russa.

Não deixou de recordar que os EUA também invocaram o artigo V após os ataques terroristas de 11 de setembro de 2001 e que os aliados da NATO responderam prontamente, do mesmo modo que os americanos devem estar preparados para prestar assistência a qualquer aliado.

Relutância europeia – opiniões e governos não convergem

Um segundo ponto que gostaria de sublinhar é relativo à forma como a Europa, ou melhor os governos europeus, estão a encarar os desafios que as eleições americanas nos colocam.

Para isso socorro-me de um estudo que acaba de ser divulgado pelo European Center for Foreign Relations, contendo as respostas a um inquérito lançado por este importante think-tank europeu em cada um dos 28 Estados-Membros sobre as eleições presidenciais americanas. É curioso observar que o titulo que deram a este estudo – “Fear and loathing on the road to the US elections” – dá-nos a ideia de que os inquiridos terão revelado medo e repugnância pelo caminho que as eleições estavam a levar.

Queriam saber quais as perceções dos governos, das oposições e da opinião pública em geral sobre os desafios que a nova presidência poderá colocar aos respetivos países e se, em geral, a Europa estava pronta para enfrentar as consequências de uma nova administração dos EUA após o mandato de Barack Obama.

As respostas recolhidas mostram uma grande variedade de pontos de vista, sobre estas matérias, em toda a Europa. Mas um tema emerge fortemente a recolher a quase unanimidade. Os europeus, particularmente os que atualmente estão no governo, anseiam pela continuidade e estabilidade das relações transatlânticas.

Os EUA continuam a ser vistos como o mais poderoso garante da segurança europeia. Por isso, os europeus manifestam claramente o forte desejo de que os EUA reforcem o seu papel como produtor e fornecedor da segurança da Europa.

Hillary Clinton é, por isso, naturalmente considerada como o candidato favorito porque representa a estabilidade e a consistência das relações, repudiando as posições de Trump em matéria de politica externa. De entre os 28, apenas um, a Hungria, destoa manifestando a sua confiança em Donald Trump…. O que também não nos deve surpreender. Les bons esprits se rencontrent….

Também as relações comerciais e económicas transatlânticas são citadas por muitos Estados-Membros como um fator importante de preocupação dos europeus, havendo um amplo apoio à rápida conclusão das negociações do TTIP (transtlantic trade and investment partnership). Um acordo que está a ser negociado há mais de dois anos e continua cheio de incertezas. Com uma vitória do lado republicano, os europeus temem que seria mais difícil um fecho feliz desta parceria.

O Inquérito demonstra, finalmente, que, de uma maneira geral, os europeus manifestam uma profunda relutância em acreditar que a retórica atual sobre a redução do papel dos EUA no exterior se venha a traduzir em efeito real sobre a política externa dos EUA.

Opinião contrária é a de muitos comentadores norte-americanos europeus cientes de que, independentemente do resultado das eleições, as tendências políticas nos Estados Unidos e as tendências geopolíticas no exterior apontam para que o seu papel no mundo terá de mudar face à inevitável revisão das suas prioridades.

È sua convicção que os americanos aceitariam que nesta revisão das prioridades externas dos EUA se inclua um reforço das suas alianças tradicionais e sobretudo da comunidade transatlântica. Exigirão, porém, que os aliados europeus assumam maiores responsabilidades, tanto na sua própria segurança e defesa, como na sua contribuição para a segurança internacional.

Convém, porém, não esquecer que os interesses estratégicos prioritários dos Estados Unidos da América estão a deslocar-se para a região Ásia-Pacífico, onde a China, cujo poder naval tem aumentado significativamente, constitui um risco crescente para a estabilidade internacional e para a segurança da navegação marítima, sobretudo nos disputados Mares do Sul da China.

Segundo alguns autores, a questão fundamental a que o próximo Presidente dos EUA terá que responder, na área do politica externa, será a de saber como lidar com a ascensão da China como potência económica global e potência militar, o que se torna no maior desafio estratégico dos EUA, além de ser um dos fatores mais importantes na construção de uma nova ordem internacional no século XXI.

António Figueiredo Lopes
Presidente da Direção

Intervenção na Conferência sobre as Eleições Americanas organizada, em Lisboa, pelo Instituto Benjamin Franklin, no Grémio Literário, em 20 de outubro de 2016.

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