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Entrevista ao Major-general Agostinho Costa

Agostinho Costa explica o cerco a Kiev, os bombardeamentos na região de Lviv e a batalha de Mariupol. Diz que “isto não é uma luta entre a democracia e o obscurantismo, é uma guerra entre dois nacionalismos”. E defende que a Europa não está a perceber o jogo: não é xadrez, é Go. Os chineses ensinam.

Depois de um fim de semana sangrento na Ucrânia, marcado pelo bombardeamento do Centro Internacional para a Manutenção da Paz e Segurança, na região de Lviv, a apenas 25 quilómetros da fronteira da NATO, “verificamos no teatro das operações que as cidades junto à fronteira passaram a ser um alvo. E isso vai agravar-se”, analisa o major general Agostinho Costa, à CNN Portugal.

O analista divide a sua leitura em vários patamares. Ao nível político-diplomático, até houve “alguns passos positivos”, com a disponibilidade de Zelensky, o presidente ucraniano, de prosseguir a via diplomática, propondo como interlocutor o primeiro-ministro israelita, Naftali Bennett. “É um bom interlocutor, dadas as afinidades naturais que tem com o senhor Zelensky e dado ser um importante interlocutor junto dos EUA e da Rússia – porque Israel consegue ter esta equidistância e um capital de credibilidade”. Também Vladimir Putin “mantém a via da conversação com os dois grandes atores europeus”, França e Alemanha – mas não com a UE, que “está desaparecida deste processo em termos da resolução do conflito, infelizmente”, nota.

Já no segundo patamar, o estratégico, “há dois dados importantes”, diz Agostinho Costa: “Por um lado, o exercício da NATO na Noruega, para onde vai deslocar 30 mil militares para um exercício, que já estava planeado mas que é um fator de dissuasão e de demonstração da determinação”; por outro lado, “conseguimos perceber o que aconteceu com a aeronave Tupolev 141, que caiu na Croácia, porque depois soubemos que caiu uma idêntica na Crimeia, o que indicia que a utilização de equipamento do tempo soviético, muito provavelmente pela parte ucraniana, recorrendo ao que tem, mas temos de ter em conta que é material sem qualidade operacional credível”.

É então que chega o terceiro patamar, o operacional, que teve desenvolvimentos expressivos este fim de semana. “Quando Moscovo avisa que as colunas de reabastecimento de material vindas do Ocidente para a Ucrânia constituem alvos legítimos”, foi isso que fez, executar a ameaça. “Faz parte da manobra”.

No nível operacional, “a preocupação russa está em Kiev”, onde está “a cercar a cidade”. Para contornar o obstáculo que é o rio Dniepre, que divide a cidade – e, na prática, o país -, o que dificulta a operação, até porque as pontes já foram destruídas, “há forças [russas] que vêm de nordeste e outras de noroeste”, são “duas manobras em pinça, dirigidas a Kiev. Mas não haverá muita pressa dos russos em cercar completamente a cidade”, afirma o major general, que já explicará porquê. “Kiev é fundamentalmente um objetivo político, não propriamente um objetivo militar. Os russos sabem que não se podem embrenhar num combate de ruas em Kiev. Conquistar assim uma cidade com a dimensão de Kiev implica um empenhamento de forças militares brutal.”

“Não creio portanto que os russos façam a Kiev aquilo que estão a fazer a Mariupol”, que é uma cidade muito mais pequena e que os russos não conseguem tomar. “Para tomar uma cidade é preciso quatro vezes mais operacionais do que em terreno aberto”, explica. “Se os russos tentarem entrar vem Kiev perdem esta guerra. O que estão a fazer é pressão sobre Kiev, para que Kiev possa ser um objetivo político de trade-off com a parte ucraniana. Podemos começar a acreditar que os russos não vão conquistar o país”, sintetiza.

Houve ainda, no final da semana, a ameaça de uso de armas químicas, que Agostinho Costa coloca ao último nível, o comunicacional, “o patamar das narrativas”. “A cartada química não faz sentido, porque provocaria muitas baixas na população civil e nenhuma das partes quer pagar essa fatura. Vamos entrar muito na encenação, como vimos na Síria, os russos ‘confundiram’ laboratórios farmacêuticos com laboratórios químicos. O que se pretende é alarmar a opinião pública, direcionar uma contra a outra, mas em termos militares racionais não se perspetiva que sejam utilizadas armas químicas, até porque isso elevaria o patamar do conflito”.

Afirma que os ataques às cidades da Ucrânia junto à fronteira ocidental se vão agravar. Porquê?

Repare, a Ucrânia é uma planície e o rio Dniepre é a grande linha que a divide. A norte e a leste, a Ucrânia tem a Rússia e a sua aliada a Bielorrússia; a sul, o mar Azov e o mar negro estão bloqueados, e toda a zona, tirando Mariupol, está nas mãos dos russos. Por onde está a entrar todo o apoio ocidental? É pela Polónia. Daí que a região de Lviv tenha tudo o que é depósitos de reabastecimento de material de guerra, armas e munições, gasolina, rações de combate… Quando se começa uma campanha destas, os primeiros alvos são os sistemas de defesa aérea, os aeroportos e bases aéreas, os sistemas de comando e controlo, depois os depósitos de munições, as pontes, os centros de decisão política, os centros de comunicação….

Ou seja, os bombardeamentos a ocidente são para destruir os reabastecimentos. Mas o que significa dizer que eles se vão agravar?

Intensificação dos bombardeamentos. Eles são fundamentalmente ataques aéreos, contra os eixos de reabastecimento do exército ucraniano.

Lviv pode deixar de ser uma cidade segura?

Pode, mas tenho dúvidas de que ataquem a cidade. Temos sempre de não subvalorizar o adversário: um míssil contra um prédio ali é um míssil desperdiçado e os misseis são caros. Só se usam misseis dirigidos. Repare em Kiev: o que é os russos atacaram primeiro? A torre de comunicações, com um míssil. Aqui, quais são os alvos? Os aeroportos, para que a Ucrânia não os possa utilizar. Os russos têm uma malha de satélites por cima do país, têm informações (e têm gente infiltrada), sabem onde estão as infraestruturas militares ucranianas e onde é que uma coluna ou um reabastecimento de material está.

Porque é tão importante o nível comunicacional, de que fala muitas vezes?

Repare, se estivéssemos em guerra, isto [a redação da CNN, onde a entrevista se realizou] seria um dos objetivos. Porque esta guerra decide-se aqui, na comunicação. O que difere o conceito de conflito híbrido russo do conflito híbrido ocidental, é que a guerra já não é um assunto militar.

Não?

Os militares são uma componente mas não a principal. Os russos têm a subordinação da manobra militar à manobra informacional: informacional no plano comunicacional mainstream [comunicação social], redes sociais e ciberataques. É por isso que os russos têm todos os instrumentos de poder centralizados; é por isso que vemos o senhor Putin todos os dias na televisão. Todos os dias. Nós fechamos a RT e a Sputnik, mas o senhor Putin passa as mensagens no plano político. Não é ele quem está a conduzir a manobra operacional, ele conduz a manobra política. E tem-na feito de forma inteligente, diga-se de passagem. Quando jogou a cartada nuclear, neutralizou a NATO. O que é a NATO? São os Estados Unidos, é o único país da NATO que tem o verdadeiro poder para confrontar a Rússia. Mas não quer, termos uma terceira guerra mundial seria uma insanidade. Quando Putin jogou a cartada nuclear, pôs os sistemas nucleares alerta, foi um aviso, mas anteontem o senhor Biden disse que não haverá Terceira Guerra Mundial – baixou o patamar, o que é inteligente, desqualificou a ameaça nuclear russa. Cada um está a jogar com as armas que tem. A parte militar destina-se sempre a apoiar os objetivos políticos. Kiev não é um objetivo militar, é um objetivo político, na minha opinião.

Por isso é que diz que a Rússia não tem pressa para cercar Kiev?

Quanto menos pessoas Kiev tiver, menor será o drama humanitário…

É a a dimensão comunicacional, que serve para influenciar a opinião pública?

“The hearts and souls” [os corações e as almas]. O paradigma mudou, a segurança já não é mais um assunto centrado no Estado. Com o conceito de Segurança Humana, que em 1994 as Nações Unidas adotaram, hoje a segurança está centrada nos Direitos humanos, nas pessoas.

Pode explicar melhor?

Antes, a segurança estava centrada no Estado: era capitulação, destruição, era o jogo de xadrez. Como é que acaba o jogo de xadrez? Com xeque-mate. Hoje não é assim. É por isso que os chineses estão noutro registo, eles jogam Go.

O xadrez é a forma no Ocidente de fazer a guerra: somos dois jogadores, antecipamos jogadas, mexemos peças a pensar nas jogadas seguintes e ganha quem fizer capitular o outro: xeque-mate. Não é assim que guerra é agora conduzida, nem é assim que os chineses a fazem. A guerra é conduzida quando se assume que uma parte tem uma nítida vantagem sobre a outra e quando bloqueou a outra: é o Go. O que é determinante aqui são as pessoas. E o que muda o registo das pessoas é a comunicação. É “the hearts and souls”. É a mudança da opinião pública que faz com que o poder político se ajuste. Os russos dizem que é isso que o Ocidente tem feito contra os países de influência russa, através do que eles chamam revoluções coloridas e nós chamamos de primaveras, que, na prática, são a forma como o ocidente tem feito mudanças de regime.

E o confronto ideológico?

Não há disputa ideológica. A disputa ideológica acabou com o fim da guerra fria. Repare, ainda há muita gente que julga que Putin é comunista. Putin não é comunista, é nacionalista. Putin depreza Lenine. Ele é de uma escola dissidente dos bolcheviques, Lev Gumilev é o seu grande mentor. Ler a Ethnogenesis russa de Lev Gumilev… é linguagem nacionalista pura e dura.  É o que Putin é: um nacionalista puro e duro.

Diz que não há pressa para cercar Kiev para dar tempo às pessoas para saírem. Mas diz que é por uma questão de comunicação, de opinião pública, não por humanidade.

Porque é que os russos foram os primeiros a falar de corredores humanitários? Porque sabem que uma das armas que lhes são dirigidas são estas imagens lancinantes que vemos na comunicação social, das famílias, das pessoas mortas, feridas. Porque é que o Batalhão Azov [ucraniano] não deixa sair os civis? O Batalhão Azov está cercadíssimo em Mariupol. E os russos vão combater de casa a casa. Mariupol vai ser o Estalinegrado desta guerra.

Porquê?

Os russos estão convencidos, na minha opinião mal – e só faço a minha análise com base na informação disponível em fontes abertas -, que ganham uma vitória psicológica sobre a Ucrânia se eliminarem o Batalhão Azov. O Batalhão Azov é um dos 37 batalhões que saíram do conflito de 2014, é um batalhão de neonazis. O exército ucraniano está a combater muito bem, mas é um exército de 200 mil, os russos são 900 mil e têm o comando do espaço aéreo – não se ganham guerras se não houver comando do espaço aéreo. É por isso que o senhor Zelensky tem pedido tanto uma zona de exclusão aérea.

Que significa dizer que Mariupol vai ser Estalinegrado?

Que é para arrasar. Vai ser uma batalha de ruas, na minha opinião. Vai ser uma mortandade. E é por isso que o batalhão Azov não deixa sair os civis.

Estão a usar como escudos humanos, como acusa a Rússia?

Estão. Há documentos das Nações Unidas que mostram a questão dos direitos humanos na Ucrânia, antes da invasão. São relatórios importantes, que mostram a mesma brutalidade que hoje se vê, os atropelos aos direitos humanos, de um lado e do outro, jornalistas mortos. Estamos a lidar com nacionalistas. Isto não é uma luta entre a democracia e o obscurantismo, é uma guerra entre dois nacionalismos.

O russo e o ucraniano.

Sim. Para onde é que foi o Mário Machado?… Na minha opinião, não devemos apagar incêndios com gasolina. Seria importante que houvesse bom senso neste processo e que se passasse dos interesses geopolíticos parta os interesses europeus. E sobre os interesses europeus, como os chineses costumam dizer, não é a hegemonia, é a harmonia. Procurar uma harmonia no espaço euroasiático, onde nos inserimos. E isso passa por pensarmos que somas zero normalmente não funcionam.

Se a UE não está a ter um papel importante, então estão a tê-lo a Rússia, EUA… e China.

Sim. Os grandes players aqui são a China e os EUA. Estão ambos a aprender. Os russos estão a procurar um espaço geopolítico, afirmarem-se num mundo em que sabem que já não são determinantes. A Europa deixou de ser determinante a partir de 1989, a última grande potência europeia então era a União Soviética. A partir, a centralidade do poder mundial passou a ser os Estados Unidos. E agora há um novo polo, a China. Os EUA são a hiperpotência, se eles entrassem tínhamos o risco de uma Terceira Guerra Mundial, mas arrasavam os russos, a capacidade americana não tem comparação possível, dominam os ares, dominam a tenologia, dominam o mar. Isto é importante para os americanos porque estão a fazer um teste operacional aos russos. Aos americanos não lhes interessa minimamente um conflito na Europa, mas aqui vamos perder todos, menos eventualmente os chineses e os americanos.


16 de março de 2022

Agostinho Costa
Vice-Presidente da Direção

Entrevista publicada pela CNN Portugal, em 14 de março de 2022:

“Putin é um nacionalista puro e duro” (entrevista na integra)


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