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A guerra híbrida russa dos «pequenos homens verdes» e o impacto na NATO

Quando as forças especiais russas, sem insígnias nem identificações, mas apoiadas por uma poderosa máquina militar, tomaram a Criméia no final de fevereiro de 2014, parecia que estávamos perante o início de uma nova era de fazer a guerra, apesar do modus operandi empregue, neste tipo de contexto, não ser totalmente desconhecido. Contudo, a abordagem operacional russa utilizada trouxe muitas curiosidades e, quiçá, ensinamentos, de que podemos todos tirar algumas lições. É o que se propõe no presente artigo, sujeito a outras visões, opiniões e certamente mais bem informadas do que aquelas que o autor aqui pretende partilhar.

O conflito na Ucrânia demonstrou que Moscovo, ainda que com um decréscimo dos seus indicadores económicos, numa tentativa de reconciliar as suas ambições regionais e reavivar a sua história imperial, tem vindo a desenvolver um novo estilo de guerrilha geopolítica alavancando a sua reconhecida capacidade nas operações de informações, deceção, simulação e violência, direcionando-as para maximizar as oportunidades que se apresentam.

No princípio da crise, as táticas russas, foram desenhadas para evitar a atrição ou ação cinética diretas, garantindo assim que os combates posteriores pudessem ocorrer nos termos que mais lhes convinham. A reforçar este instrumento militar, uma variedade de outros atores foram utilizados a seu favor – uns óbvios e públicos, como aliados regionais e internacionais, e outros mais discretos como os grupos armados separatistas. Este quadro foi ainda mais colorido, com operações psicológicas, pressões económicas, campanhas diplomáticas, ações de espionagem e recolha de informações, entre outras atividades.

Embora não sejam totalmente novas, estas táticas foram apelidadas como sendo uma novidade. Algo que foi bem reconhecido pelo Chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas russas, General Valery Gerasimov, num artigo de 2013, no qual ele observou o crescente papel das organizações não-militares como meios para alcançar objetivos políticos e estratégicos, e, em muitos casos, já ultrapassaram o poder das armas. Acrescenta que na ortodoxia do Kremlin, no que se refere às lições da “Primavera Árabe”, aquele desastre humanitário foi resultado de campanhas Ocidentais dissimuladas para gerar mudanças de regimes. Diz, ainda, que os conflitos modernos já não são anunciados e que, depois de terem começado, em questão de meses ou mesmo dias, transformam-se num atoleiro de caos, catástrofe humanitáriae guerra civil. Conclui, dizendo que esses conflitos tornam-se vítimas de intervenções estrangeiras que tarde ou nunca resolvem a bom termo as crises instaladas.

Há uma variedade de razões pelas quais a Rússia de hoje opera desta forma. Ainda segundo Gerasimov, o uso aberto de forças, muitas vezes sob o pretexto da manutenção da paz ou regulação da crise, é utilizado em determinada fase apenas para a materialização do desejado estado final do conflito. Apesar da ainda formidável dimensão das forças armadas russas, na prática, muitas capacidades permanecem antiquadas, mal treinadas e pouco operacionais. Moscovo tem claramente a preponderância militar e poder económico na Eurásia pós-soviética por ainda se sentir com direitos hegemónicos. Contudo, no caso extremo de um conflito generalizado, esta não é uma vantagem tão aparente. O risco de envolver outras potências como os EUA ou a China (apesar de esta última já ter manifestado diversas vezes o seu apoio pró-russo), ou ainda, a NATO ou mesmo a União Europeia, traduzir-se-á em algo potencialmente muito sangrento, prolongado e certamente votado ao fracasso. Mesmo a guerra de 5 dias contra a Geórgia em 2008, enquanto uma vitória, foi um episódio muito doloroso. Os acidentes e baixas resultantes de fogo amigável, comunicações pouco fiáveis e as inúmeras avarias no meios de transporte terrestres galvanizou a mais significativa reforma militar russa em mais de duas décadas.

A Rússia encontra-se, assim, numa situação em que muitos dos seus pontos fortes são menos decisivos do que gostaria, ou então são limitados por causa de realidades económicas ou geopolíticas. Sem rodeios, um país com uma economia algures entre as economias da Itália e do Brasil, não deixará de procurar fazer valer o seu grande papel internacional. Para este fim, a Rússia voltou-se para esta nova “geopolítica de guerrilha” como forma de reforçar as suas forças e reduzir as suas fraquezas perante os potenciais adversários. É, pois, uma forma mais económica de exercer influência regional e global.imagem 2

Em termos gerais, a Rússia assim reflete um modo diferente de fazer a guerra, mais explícita nos pilares não-militares do adversário, complementando estas ações com as alavancas das informações, da diplomacia e da economia mas mantendo sempre a predisposição para, se necessário, combater em ambientes de alta intensidade. A ação cinética da capacidade militar está, pois, bem presente e visível, e o emprego das forças nos diversos teatros tenderão a operar com mais autonomia e precisão do que se verificou no passado. Concomitantemente, a Rússia tem vindo a desenvolver as suas forças especiais e de intervenção, especialmente a Spetsnaz com um efetivo superior a 12.000. Estes são geralmente descritos como sendo forças especiais, altamente móveis e com uma eficaz infantaria ligeira semelhante aos Rangers dos EUA ou à Legião Estrangeira francesa. Por outro lado, o Comando de Operações Especiais (Commando Special’nyh Operacij (KSO)) tem talvez 500 operacionais que no Ocidente poderiam ser considerados semelhantes à força britânica das Special Air Services (SAS) ou aos 1st Special Forces Operational Detachment (Delta) dos EUA. No entanto, a Spetsnaz, como as Tropas Aerotransportadas Vozdushno-Desantnye Voyska (VDV) e a Infantaria Naval Russa ou Fuzileiros Russos, representam um “exército dentro de um exército” capazes de conduzirem operações militares muito sofisticadas, de forma decisiva, discreta e, se necessário, para além das fronteiras da Rússia.

A dar maior relevo a estas capacidades existe uma dimensão na guerra das informações que vai para além da guerra puramente cinética ou militar. O Kremlin tem dedicado recursos específicos à sua comunidade de informações. O serviço de informações principal da Rússia, o Sluzhba Vneshney Razvedki (SVR), a direcção principal de informações da Spetsnaz, o Glavnoye Razvedovatel’noye Upravlenie (GRU) e até mesmo o serviço federal de segurança, o Federal’naya Sluzhba Bezopasnosti (FSB), estão cada vez mais envolvidos em operações no exterior. Não são apenas agências encarregues de coletar informações sobre as capacidades e as intenções estrangeiras, mas também são instrumentos de guerra não-linear, espalhando desespero e desinformação, incentivando deserções, e quebrando ou corrompendo linhas de comando e controlo adversárias.

Capacidade na contra-informação

Outro foco particular dos esforços do Kremlin tem sido a sua capacidade na contra-informação para transmitir a sua própria mensagem e minar e contestar a dos outros para ganhar corações e mentes. A estação de televisão internacional Russia Today (RT), por exemplo, tornou-se um jogador fundamental, não só em defesa da linha Kremlin, mas, talvez mais importantemente, como desafiador ortodoxo contra os meios de comunicação ocidentais. Com uma mistura animada de investigação genuína, apresenta teorias bizarras de conspiração e dissimulações cínicas. Seu orçamento em 2015 teve um aumento de quase 30%, sugerindo que o Kremlin aprecia bem a relevância do seu papel.

A aplicação destas táticas, obviamente negadas mas politicamente impulsionadas na Ucrânia, provou o seu verdadeiro potencial, mas também fez emergir alguns riscos que não haviam sido calculados. De muitas formas, a Crimeia foi o contexto perfeito onde os russos poderiam testar a sua nova abordagem. A península já tinha instalações russas da Frota do Mar Negro, incluindo a 810ª Brigada Naval de Infantaria Independente, onde, entre as quais, operacionais do KSO foram sendo tranquilamente infiltrados ao abrigo de rotações regulares de tropas. As forças militares locais, que, em qualquer caso, nunca iriam receber ordens de Kiev, eram essencialmente técnicos e mecânicos, e não tropas de combate da linha da frente. A população local, alienada por força de mais de 20 anos de negligência e má administração por parte de Kiev, estava em grande parte disposta a juntar-se aos mais ricos da Rússia e ansiosa para se tornar agente de uma nova ordem moscovita.

A 27 de fevereiro, o KSO e a 810ª Brigada Naval de Infantaria Independente cercou e tomou o edifício do parlamento da Criméia e começou a bloquear as bases ucranianas na península. Apesar das suas fardas e modernas armas russas, a falta de insígnias nestes “pequenos homens verdes” sustentava o discurso de Moscovo garantindo que eles não eram tropas russas. Esta “manobra política” foi o suficiente para criar incerteza nas mentes de Kiev e da NATO. Eram mercenários, vigilantes da Criméia, ou uma aventura que não havia sido sancionada por um comandante local. Esta deliberada deceção militar (maskirovka) permitiu dar tempo aos russos e seus aliados locais para assumir posições de comando em toda a Criméia.

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A Rússia está de volta e agora sabemos do que é capaz. A própria desordem em Kiev, apesar de ter trabalhado a favor da agenda moscovita, também provou ser um problema sério, pois ninguém está disposto a fazer concessões politicamente ruinosas. A curta e pequena guerra vitoriosa abriu uma ferida que ainda sangra.

Se militarmente a operação foi um sucesso, politicamente ficou para além de um colosso fracasso e este novo estilo de guerra, que procura contar com múltiplos choques militares e não-militares, para paralisar o inimigo e quebrar a sua vontade de resistir, depende, sem surpresa, sobretudo de uma clara e precisa compreensão do contexto político em que se está a operar.

Depois das manobras militares da Rússia na Ucrânia, alguns oficiais, incluindo o próprio presidente russo, Vladimir Putin, esperavam que a NATO mudasse de postura – de um modelo, estritamente virado para a gestão de crises, para um de defesa coletiva mais reforçada. Ainda que tenha levado 6 meses a tornar-se visível aos olhos da comunidade internacional, na verdade, foi exatamente isso o que acabou por acontecer.

NATO estabelece medidas para resposta a alterações no ambiente de segurança

O novo paradigma pôs em marcha o NATO Readiness Action Plan (RAP) que estabelece um conjunto de medidas para responder a alterações no ambiente de segurança junto às fronteiras da Aliança. Em concreto, reforçou o objetivo permanente do próprio articulado do Tratado de Washington, no que se refere à defesa coletiva dos seus Aliados e assim, tranquilizar os membros da Europa Central afirmando que o Artigo 5º (um ataque contra um aliado é um ataque contra todos) representa e tem, de facto, um significado relevante. Segundo o Secretário-geral da NATO, Jens Stoltenberg, “The Readiness Action Plan is the biggest reinforcement of our collective defence since the end of the Cold War. And it is my top priority to implement this plan in full and on time.”

O elemento estruturante do conceito do RAP é que a Aliança não mantém forças permanentemente estacionadas nas áreas do seu interesse. Num regime de rotatividade, e em ambiente de exercícios reais com manobras, as forças projetadas movimentam-se sob Comando coeso e estruturado nas zonas consignadas para esse efeito. Numa espécie de “dança de galo”, as forças fazem patrulhamento nesses espaços e a NATO, assim, vai lembrando que qualquer violação das fronteiras da Aliança não é uma boa ideia.

O RAP assenta em dois pilares:

  1. Medidas de Garantia (Assurance Measures) – aumento da presença e atividades militares para garantir a dissuasão; e,
  2. Medidas de Adaptação (Adaptation Measures) – alterações na postura e capacidades militares da Aliança a longo prazo.

Uma boa parte das Medidas de Garantia já foram implementadas, a saber, o reforço da missão de policiamento aéreo dos países Bálticos, o aumento dos voos de reconhecimento do AWACS sobre os territórios dos Aliados a leste, uma maior presença naval nos mares Báltico, Mediterrâneo e Negro, e a projeção de forças em regime de rotatividade para exercícios terrestres como já referido.

No que diz respeito às Medidas de Adaptação, estão em curso os esforços para melhorar a Força de Reacção da NATO Response Force (NRF) no sentido de a tornar mais ágil e capaz de que resultou a criação da Very High Readiness Joint Task Force (VJTF). De maior relevo, a sua componente terrestre está a ser reestruturada, consistindo numa série de forças constituídas à medida das necessidades, projetadas a curto prazo e que podem ser edificadas ao nível de Divisão em vez de Brigada como previsto na arquitetura anterior.

Nos últimos anos, o RAP foi sendo alaragado para incluir o flanco sul da NATO. Esta postura permite que os aliados dessa região, como a Grécia, a Espanha, a França, Portugal e a Itália, mais facilmente compreendam o deslocamento da atenção da Aliança para o Oriente. Por outro lado, também permitiu que o Mediterrâneo continuasse a merecer a devida atenção face aos diversos problemas que a zona tem vindo a enfrentar e que, de resto, são do conhecimento geral. Concomitantemente, desta feita, a NATO demonstra nos planos diplomático e militar que não está totalmente obcecada só com a Rússia, e que tem reservas de capacidade para se dedicar a outras áreas do seu interesse.

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Os Aliados estão agora mais firmes e coesos. Até os tradicionalmente mais céticos, como a Alemanha, está cada vez mais disposta a apoiar iniciativas com acrescidas e consideráveis capacidades. Todo este compromisso coletivo, na verdade, demonstrou a enorme dimensão da reformulação estratégica desencadeada pelos eventos na Crimeia.

Com esta nova postura, a base nuclear da defesa e integridade territorial da NATO está de volta ao coração da Aliança. Não podemos dizer que voltamos à Guerra Fria mas, depois de décadas centrada em tarefas expedicionárias, reformando as suas forças nesse sentido, a NATO está a entrar numa nova fase da sua história. Pela primeira vez, a Aliança procura um equilíbrio entre o clássico Artigo 5º e o seu papel principal como “prestador de serviços de estabilidade” em qualquer parte do globo.

Contudo, não há bela sem senão. O RAP é um empreendimento dispendioso porquanto a NATO vai ter que adaptar as suas estruturas, reorganizar a sua sede em Bruxelas, ajustar o seu planeamento para contingências e adquirir novos recursos. Despender mais no aumento das atividades de treino e desenvolver capacidades para lidar com os novos paradigmas estratégicos vai obrigar a aumentos nos orçamentos de Defesa que, contrariamente, e por força da conjuntura económica global, têm vindo a ser reduzidos.

Perante esta realidade, a NATO também procura implementar uma outra importante decisão que prevê um compromisso de investimento, dentro da próxima década, estipulando que os Aliados assegurem orçamentos para a Defesa de pelo menos, 2% dos seus PIB´s. Simultaneamente, solicita que cada membro use pelo menos 20% desse orçamento em investimentos na área da Defesa, garantindo, desta forma, um fluxo ininterrupto de inovação nas suas capacidades militares. Por último, suspender desde já, quaisquer reduções de orçamento e investimento na Defesa.

A paz é um bem extremamente valioso. Por esse bem, extremamente valioso, os cidadãos devem esperar ter que pagar um preço extremamente elevado e também ter a clara consciência de que a segurança dos seus Estados e o bem-estar das suas Nações, não são bens que se adquirem a baixo custo.

Consequentemente, importa relembrar que os decréscimos dos investimentos, a redução dos efetivos militares, do seu treino, da sua proficiência e a delapidação das capacidades nos domínios da Defesa e da Segurança abrirão janelas de oportunidades a outros atores, muitas vezes constituindo-se como ameaças à paz que os incautos e mal preparados, não serão capazes de posteriormente fechar.

O recém-eleito Presidente dos Estados Unidos está claramente em opsição a este ciclo. Investir na segurança interna, aumentar as capacidades militares e potenciar a influência global está no topo da sua agenda. Durante a sua campanha eleitoral, declarou abertamente que a população da Crimeia quer fazer parte da Rússia, e não da Ucrânia. Este posicionamento, a manter-se nos discursos e ações, não é um bom presságio para a eventual recuperação da estabilidade ou encontrar outro modelo político mais consensual para região.

A Rússia venceu a “guerra militar” e a “guerra das informações” para apoiar as suas operações de combate na Crimeia e minar o entusiasmo ocidental para um eventual envolvimento direto. Contudo, a essência da “guerra híbrida” obriga a sincronizar, sequenciar e combinar, de forma eficaz, os diversos instrumentos do Estado (PMESI)[1] no sentido de ganhar a subjacente “guerra política”, esforço sem o qual não se alcança o desejado estado final. Aqui, há muitas reservas se o Kremlin ganhou. Interrogo-me contudo, se os incómodos criados em Kiev e na NATO são, de facto, um incómodo para Moscovo.

Amaral Mota
CMG Chefe do Gabinete de Ligação aos Adidos de Defesa e Militares (EMGFA-CISMIL)

[1] PMESI – Da doutina NATO – Political, Military, Economic, Social and Intelligence ou Informational

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